Carta a Tumba

Carta a Tumba

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Querida Tumba,

Fiz-me Mulher muito cedo, cedo demais para a minha idade. Mas a vida obrigou-me a isso, caminhava rumo a um precipício e era inevitável contorna-lo. Assim, involuntariamente, tive deixar-me mergulhar no “Mulher” , estar “condenada” a cuidar, educar, zelar, amar e perder. Tive filhos e filhas, que geraram netos e netas… homens que surgiram e se foram tal e qual como vieram – do nada – mas hoje, não tenho ninguém, nem se quer a mim própria!

Esgotaram-se as minhas forças, esgotaram-se os meus sonhos e, desta vida, nada espero, além do silenciamento absoluto do meu coração.

Resta-me chorar até que tal coisa aconteça, vou chorando pelo meu futuro desaparecimento físico – porque o psicológico, há muito que sucedera – vou chorando pelo caminho que o altíssimo me fez trilhar… Sou apenas uma actriz nesta diabólica peça que se chama vida. Sendo assim, vou actuando até que a cortina caia. Aplausos? De nada me servem! Ser vaiada? Assim foi durante toda a actuação!

Foto:Feeling capela

Sem nunca ter tocado em uma esferográfica, consegui aprender o abecedário da vida. E sem nunca ter folheado um livro, consegui ler as linhas do meu quotidiano e hoje, sou doutorada em viver, formada entre as ruas!

Só há solidão, no cubo de espelhos no qual estou, e o reflexo que me aparece, vai zombando de mim. Heroína sem estátua e lugar numa praça.

Recebo tapas das minhas reflexões, mas estas lágrimas, apesar de doerem, acariciam-me o rosto e confortam-me. Não ouso engoli-las, para que não me afogue nelas e em sua fúria… Deixo-as bater no tecto do meu crânio onde os soluços são os relâmpagos que ribombam na calada da minha noite eterna. Pois, na minha geografia, há muito que o sol não brilha!

Que soe o apito anunciando o final da partida,que soe… sinto-me exausta, exausta… do cálice da morte quero apenas uma gota. Cansei de ser mais uma na estatística global, sobre a miséria, analfabetismo, pobreza absoluta… entre tantos outros temas que enriquecem a imprensa…
Sendo assim,suplico que a Tumba me convide aos seus aposentos… que eu virei na velocidade da luz.

Aguardo resposta.

Assinado:
“Uma idosa abandonada e esquecida”

Foto: Feeling Capela

Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Essa e uma história cheia de verdades.
    No nosso dia a dia vivemos situações idênticas, bem haja o senhor nas alturas,
    porque só ele nos fortalece e enche de esperança os corações dos mais necessitados.
    E momento de reflectirmos e ajudarmo – nos pois amanhã seremos iguais a esta pobre mulher que deu muito na sua vida e não viu recompensa alguma.
    Ame ao próximo como amas a ti mesmo.

  2. Apenas dizer que este texto faz me recuar ao recondito distrito onde me viu nasceu, pois a caracteristica do mesmo espelha a beleza e a verdade k ainda vive em muitas maes, esposas e avos…

  3. Gostei do tema Emerson. Continue, pois o mundo de hoje, mais que nunca, precisa de quem se lembre das pessoas idosas, abandonadas e esquecidas e que denuncie o que está errado no mundo e que precisa de ser corrigido.

    • Muito obrigado Jose Mendes,vou dando o meu nobre contributo atraves da escrita,dando voz aos que na podem falar,visao aos que nao podem ver,sons aos que nao podem ouvir,pernas e velocidade aos que nao podem andar… Obrigado!

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