A Carta da Nhelete

A Carta da Nhelete

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Alexandre, “Alex Danger Man”, como é vulgarmente conhecido, é um presidiário. Encontra-se na cadeia de máxima segurança cumprindo uma pena de 10 anos por porte de arma ilegal e tráfico de droga. Alex Danger é rebelde, várias vezes foi encarcerado na solitária durante meses por mau comportamento. Várias vezes foi espancado por seus colegas por não querer seguir as leis do rei da selva. É que nos presídios há sempre um órgão máximo a nível dos presidiários, é ele quem estabelece as regras sobre a troca e venda de vários produtos que entram clandestinamente naquele recinto, produtos como cigarros, fósforos, bebidas alcoólicas… Alex foi várias vezes solicitado para revender produtos entre os reclusos e no mesmo número de vezes se recusou e igualmente foi espancado, contraindo vários ferimentos em várias partes do corpo. É estranho que um criminoso se tenha recusado a prestar serviços do género. É que Alex não está com a cabeça no presídio, mas sim pelas ruas… Alex sentia pavor de si próprio, por sorte sua, os assassinatos que cometeu não foram provados em tribunal, os espancamentos que cometeu não foram denunciados, mas foram sentidos, pois eram destinados a pessoas próximas… Alex tinha uma família, uma velha mãe, duas irmãs e uma esposa.
Sempre que Alex regressava das ruas, estava bêbado ou drogado, por vezes as duas coisas ao mesmo tempo. O dinheiro do tráfico bastava-lhe para sustentar a família e sobejava-lhe, Alex era generoso, mas também era arrogante e mau, muito mau. Sua mãe era uma católica de corpo e alma e nunca esteve a favor da conduta do filho, sempre que abrisse a boca para contestar e fazê-lo mudar de ideia, era brutalmente espancada, mesmo com os seus 75 anos de vida, Alex não media forças, descarregava toda sua fúria na nobre velha e quando suas irmãs tentavam separar também eram violentadas e em porção dobrada. Elas sempre odiaram Alex por estes e outros actos. Sua esposa era uma antiga prostituta, antiga porque havia decidido abandonar esta profissão. Helena estava grávida, esta também foi vítima dos espancamentos de Alex, Alex sempre lhe batia, se não houvesse motivo, ele criava-o, tentando a sorte para que acontecesse um aborto espontâneo. Alex nunca quis filhos, nunca, Alex detestava crianças. Pelas ruas, assim que passasse Alex era motivo para alerta para as crianças. Alex distribuía bofetadas para qualquer flor que cruzasse o seu caminho.
Mas Helena queria muito ter essa criança, era o passaporte para uma nova vida, esquecer de uma vez por todas, a ingrata prostituição e tentar levar uma vida decente. Aquela criança transmitia-lhe esperança, confiança para lutar nesta longa e turbulenta estrada que se chama vida. Ela já havia feito vários abortos, mas com este ser que ela carregava foi diferente, foi o final da linha para este monstruoso acto. Ela sabia que sua decisão iria desagradar Alex e foi o que aconteceu, ele a humilhava, batia-lhe, insultava, dava-lhe golpes na barriga; Helena chorava, corria, Alex perseguia, golpeava, dava-lhe valentes socos na boca do estômago, triplicando sua dosagem… O preço da vida daquele bebé eram os espancamentos de Alex. Assim era a sua vida, das suas cunhadas e da sua sogra. Assim eram os seus dias até ao momento em que Alex foi preso.
Estes pensamentos turbinavam a cabeça de Alex. Várias vezes soltava gritos dementes na calada da noite, acordando assim quase todos reclusos e alguns policias folgados que se encontravam a dormir, depois de espancado era conduzido à cela Solitária, o lugar mais minúsculo e massacrador daquele inferno que se chama presídio. Lá, Alex batia violentamente com a cabeça nas paredes tentando se suicidar, mas eram infrutíferos os seus actos.
Alex nunca recebeu visitas e já lá estava há 8 anos e meio. Alex odiava existir, não via nenhum motivo neste mundo para sua existência, mesmo com os seus 35 anos, Alex sentia-se um idoso, que apenas aguarda a morte, o seu julgamento final e depois a sua ida para o real inferno!
Bem, assim era a vida de Alex. Em mais um dia triste, ele recebeu uma encomenda. Alex ficou várias horas olhando o embrulho, mas não podia evitar o que iria acontecer, abriu-o, lá continha um pão com badjias e uma carta. Alex devorou o pão, receando que surgisse um colega rebelde que lhe arrancasse ou pedisse para repartir, em um meio como aquele, aquilo era riqueza.
Devorado o pão, Alex pegou na carta e preparou-se para ler. Alex muito cedo desligou-se dos estudos para seguir “Carreira de Gangster” pelas ruas, Alex só tinha 4ª classe! Bem, com ou sem covas ele lia, dava para safar-se diante de situações como aquela.
Alex inspirou e iniciou a leitura da carta, ela dizia o seguinte:
“Carta da Nhelete para meu querido pai Alexandre”
“Papá tudo bem? Eu estou bem, eu sou Nhelete, tua filha, me deram esse nome porque vovó diz que eu sou uma estrela cadente, ela diz que sou a esperança para curar os desgostos desta família. Papá, eu agora tenho 8 anos e daqui a nada vou completar 9, estou na 4ª classe. Eu gosto de estudar. Não tenho muito tempo para brincar, porque tenho de ajudar a Mamã a vender lá na banca, brinco lá mesmo. Mas estudo e vou passar de classe porque sou inteligente! Sabe pai, esse pão que eu te dei, é meu salário, era para meu lanche na escola, mas eu pensei em você, pensei em você meu querido pai.
As pessoas dizem para eu não gostar de ti, porque você é mau e bate as pessoas e rouba coisas das pessoas. Papá, pode até ser verdade, mas eu sonho sempre com você. No meu sonho, você brinca comigo, com a vovó, com mamã e as titias. Deus me diz para eu não ter medo de você, então eu não acredito, eu não escuto o que eles dizem, eu acredito em você, que você é bom, como no meu sonho! Papá, eu te espero, quando você sair da cadeia, onde você for, também irei, onde você dormir ali adormecerei, o que você comer, eu também hei-de comer, porque te amo muito meu papá. Agora tchau, hei-de escrever de novo, mas não sei se hei-de ter pão, não se preocupe, vou pedir a Deus, ele há-de me dar!
Te Amo Pai
Beijinhos e abraços 
Nhelete”
Um raio de luz caiu no meio daquele abismo, tudo ficou claro. Lágrimas jorravam pelo rosto de Alex, caindo na carta. Alex sentiu algo nunca sentido, pegou na carta e abraçou forte. Chorou, chorou, até não poder mais, nesse instante sentiu em seu ser a palavra de Deus.
‘Filho meu, dou-te uma nova vida, guarde-me em ti e eu guiarei teus passos e porei todas as delícias desta vida em tuas mãos”
Alex ajoelhou e agradeceu ao senhor, a partir daquele momento sua vida mudou para todo o sempre!
Esta é a história de Alex. Alex não, de Alexandre!
Todo mundo merece uma nova oportunidade, espero que histórias como esta, aconteçam inúmeras vezes pelo mundo. Paz e Amor Para todos.
Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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