Decalques da Vida na Pérola

Decalques da Vida na Pérola

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Decalques da vida na Pérola
São 4:00 da manhã, o sol ainda repousa. Faça chuva, faça sol , mais que a metade do povo moçambicano levanta-se. É hora de levantar, é hora de preparar-se para ganhar a vida. É hora de lutar pelo seu pão!
Nas ruas enormes, ou nos becos mais estreitos… a vida já se faz sentir. Pés descalços ou calçados pela “xicalamidade” ou “Mudunfa dos Nigerianos”, pisam firmemente na terra que os acolhe. Brotam em cada ser raios de esperança. Avistam-se as mesas cheias no final do dia, ganha-se forças para lutar contra o vazio do estômago. Os Manos de Marracuene, Michafutene, Machava Socimol… apressam-se, não podem perder o TPM.Tem de se deslocar à cidade de Maputo e não podem atrasar para não irritar o patrão. Além do mais, cada centavo vale ouro, e a tarifa “barata” dos transportes públicos ajuda na poupança das modestas economias que cada um possui.
Mulheres e raparigas deslocam-se às fontenárias do bairro com bidões de 20 litros, os menores ajudam carregando os de 5. É preciso encher o tambor lá de casa, o povo está ciente de que ser pobre, não é ser sujo.
Algumas mamanas já se fazem a estrada, dirigem-se aos grande mercados onde vão “gwevar” produtos para as suas pequenas bancas. Motor que ajuda a larga família a andar nesta turbulenta estrada que se chama vida. Após deixarem o dinheiro de chapa para os filhos que frequentam a escola secundária na cidade, saem carregadas de cestos de palha, com plásticos vazios. Que ao meio dia já se encontram completamente “asfixiados” pelos produtos adquiridos no Zimpeto, Malanga, Xiquelene… os chinelos “pipocas” acompanham-nas. A lama é tanta… mas é nessa imundice que são abrigados os produtos que grande parte da cidade e os subúrbios consomem. Sim, os citadinos também se fazem presentes nesses mercados. A vida não está fácil para ninguém, se estiver, deve ser para muito poucos.
Começa o barulho das buzinas pelas estradas, surgem os putos com “swagger”, colorindo o humilde uniforme escolar com pastas, sapatilhas, camisolas com cores berrantes… apinham-se para entrar no auto-carro com mais som. Os cobradores gritam “Museuuu, Baixooo…” os motoristas aumentam o volume dos seus reprodutores , ” bombam “ o que “está a bater”. O pessoal assardinhado fica eufórico, abanam as cabeças… mas bem vigilantes. É que nestes chapas há ladrões de celulares, então todo cuidado é pouco. A idosa reclama: “finara leswo motorista” (afine isso motorista). “Hi mane anga ku dswela para o kwela” – retruca o cobrador (quem te mandou subir). Os putos estão nem aí para o bate boca, tudo que querem é curtir o som que os penetra até às entranhas. A cada paragem do “mine-bus” uma autêntica cena de pancadaria acontece. Todo mundo está atrasado, todo mundo tem de fazer algo, até o mais nobre homem analfabeto sabe dizer : “time is money”!
No centro da cidade o trânsito está congestionado. Por mais cedo que se acorde, nunca se consegue chegar a tempo e hora certa ao local de trabalho . Com os inúmeros “standards” que existem na capital… ficou mais fácil ter um “carapau” um “vitz” ou “mark 2” … os jovens estão mais interessados em adquirir uma viatura, que em terminar ou iniciar a construção de uma habitação.
O polícia de trânsito não pode com tanta gente, baralha-se, enerva-se, manda parar quem ele julga infractor… passa-lhe uma multa. Chapeiros indisciplinados são mandados parar pela polícia camarária, polícia que nem se desloca ao condutor. Pelo contrário, o chapeiro desce com os seus documentos, mas antes leva uma “cinquentinha, vintinho, até mesmo uns cem… meticais”, há que “ babar” aos “Boiss’s” das estradas. Essas estradas são deles, nessas estradas eles é que fazem a lei, e que ninguém ouse contestar!
O dia vai indo, já se faz meio dia, o sol é picante. O barulho dos cobradores continua, as lutas em cada paragem, as mamanas regressam para casa. As meninas que estavam nas fontenárias têm de ir à escola… os manos trabalhadores do sector público e privado têm de almoçar! Lotam-se os mercados do Mandela, Estrela, Museu, Mercado do povo… mas sempre há espaço para mais um. Pedem-se os pratos que enchem os estômagos só de se ver. Pode-se apanhar uma cervejinha, embora tenha de se voltar ao escritório… Chissa, está calor. Só uma … não faz mal a ninguém!
Combina-se apanhar mais umas geladas assim que o expediente terminar, para as manas que são “chikes” uma água e sal basta. Nem sempre há dinheiro para comprar um “KFC” ou encomendar o almoço de alguma empresa que preste os serviços de “CATERING”. Restam só mais duas horas de trabalho, depois disso cada um vai a sua vida. Sendo assim decidem “aguentar”.
O sapateiro das esquinas está frustrado por não ter engraxado grande coisa. E a sua banquinha está quase vazia. Ao seu lado oram os pastores e obreiros da Igreja Mundial do Poder de Deus ou da IURD… fazem barulho com os seus “megafones”, “em nome do Senhor Jesus”. O sapateiro sente em si um raio de esperança, porque não acreditar em um milagre? Levanta-se, pede ao seu colega guarda para controlar a banca e dirige-se à igreja. Ora com todas as forças que há em si, até que é chegado o momento de dar o dízimo. Coitado, grande dilema, o sapateiro pensa, e repensa… até que decide tirar 2 ou 5… meticais para ofertar “Ao Senhor”. Pede-lhe que escute as suas preces, despede ao pastor e volta ao seu posto de trabalho, acreditando em um futuro melhor.
O expediente termina, assim que os chefes se vão embora, também saem os manos e manas dos seus postos de trabalho.Toma-se uma pinguinha aqui e outra acolá… os quiosques estão repletos de jovens estudantes uniformizados, apanhando de uma TENTAÇÃO, RAIZ,2M, LAURENTINA PRETA… (bebidas alcoólicas) de acordo com o rendimento das boladas que fez ao longo do dia…
Os chapas, sempre presentes, carregam mais pessoas para fora da cidade que para dentro dela. Quem serão os que vão à cidade a uma hora destas? São os estudantes do curso nocturno, são os guardas das empresas privadas e públicas, dos prédios… são as manas prostitutas na 24 de Julho, da “zona quente”…
São os “gwadjissas” (assaltantes) que se escondem nas zonas com fraca iluminação, esperando algum distraido para lhe espetar uma faca caso se recuse a passar o celular ou a bolsa…
Pois é, as ruas de Maputo já não são seguras, todo cuidado é pouco. Já escureceu, mas as estradas ainda estão lotadas de automóveis, o trânsito está uma droga. Sai-se cedo do trabalho e chega-se tarde a casa, a fome, cansaço, irritação… acompanha o meu povo a tempo inteiro.
Haja paciência para suportar as lacunas diárias, haja forças para escalar estas montanhas e chegar a um nível de vida digno de um cidadão honesto e trabalhador! Oh Deus, olhai pelo meu povo que nasce e vive cansado de tanta luta.
Chega-se ao destino, lar, doce lar… o abraço e o beijo tão esperado, vem ao encontro do guerreiro! Surgem-lhe forças e um raio de luz brota em si, tal e qual como ao iniciar do dia. Fecham-se as portas do ninho, trancam-se com todo o cuidado… nunca se sabe quem está lá fora. Já não há paz nessas ruas, já não há segurança em suas casas… pois a qualquer momento do dia, alguém está tentando ganhar o seu pão. Seja decentemente ou maldosamente! Assim é a vida na capital, nunca se está com o coração em paz, há sempre uma nuvem escura acompanhando o povo. A este povo cansado, mas persistente…
Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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4 COMENTÁRIOS

  1. que materia interresante gosto muito dessa pag. E dos autores. Divulguem mais essa pag. Todos dias antes de durmir tenho por obrigaçao de les uma materia. Obrigado m0zmaniacos

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