A Ma Paixão

A Ma Paixão

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Lembro que quando eu era mais novo, adorava viajar pelo sul do pais… com o meu pai, pois ele era, e continua sendo o meu herói! Nessas jornadas de pai e filho, eu conhecia os seus amigos, os seus métodos de trabalho e, novas paisagens, sotaques e sabores…

Apesar dos meus minúsculos anos de vida, eu conseguia notar a diferença entre o povo assim como similaridades. E eram sempre inéditas as nossas viagens, cada uma delas tinha uma lição de vida para me oferecer. E uma das que mais me marcou foi esta:

Estávamos na zona de Chicualacuala era Janeiro, e eu trazia comigo as sobras do fogo de artificio que comprara nas vésperas do final do ano. Bem, ter fogos de artificio – os ditos “paixões” – no bolso, alegra o coração de qualquer criança de 10, 9 … anos de idade. Comigo não foi diferente, estava entusiasmado para ver aquilo a rebentar e delirar-me com o barulho emitido…

Peguei nos meus paixões e tentei acende-los… mas fui interpelado por um amigo, colega e padrinho do meu pai que nos acompanhava na corrente sessão.

– Mersinho, o que é que estas a fazer?
– Quero acender paixão!
– Queres acender o que? Para quê?
– Quero acender paixão, é para “arrebentar”, anima…
E eu olhava para aqueles olhos e aquele sorriso que se expunha penosamente, perante a minha diminuta pessoa.
E ele lá continuava, mirando-me, até que resolveu falar…
– Mersinho, levanta-te…

Obedeci, sem nada compreender…

– Mersinho, estás a ver estas paredes… estás a ver aquele tanque de água ali, todo velho? Estás a ver aqueles velhos ao longe com uma catana e enxada nas mãos… indo trabalhar… estás a ver aqueles carros ardidos, que “já nem tem proveito”…
– Sim tio, estou a ver…
– Tudo aquilo, são efeitos da guerra… se estivéssemos em Maputo, poderias acender aos teus paixões e eu nem me iria preocupar mas, aqui? Bem sabes como isso faz barulho… isso poderia assustar a pessoas como aquele velho ali, com catana e enxada… ele iria se lembrar daquele carro ali, sem proveito… depois iria chorar só de ver estas paredes aqui… todas esburacadas… Sabes quem fez aquilo tudo?
– Não tio – respondi sem entender o motivo daquele sermão intenso…
– Foi a guerra Mersinho, foi a guerra… o barulho desses teus paixões iria trazer a guerra à memória de pessoas como aquele vovô ali… aquela gente já sofreu muito com a guerra, perdeu familiares e amigos com a guerra, as pessoas iriam pensar que as armas “acordaram”… então, gostarias de ver as pessoas tristes?
– Não tio, não, não gosto de ver ninguém triste…
– Isso, agora guarde isso, quando chegarmos a um lugar mais agitado, poderás acender aos teus paixões, até irei te ajudar…
Passou-me a mão pela cabeça enquanto sorria… e eu, resolvi perder-me entre os aposentos da imaginação..

No dia 25 de Junho, Moçambique e o seu povo celebraram o dia da Independência, oxalá que tenha sido do Rovuma ao Maputo… tomara que o barulho desses “paixões” que gritam e ecoam pelo centro do país, não matem e firam a ninguém… Pois o povo ainda está traumatizado, a guerra não beneficia a ninguém que a presencia… os verdadeiros “ganhadores” disso, estão noutro mundo, assistindo ao espectáculo dos gritos, tormentos, ranger dos dentes… com um saco de pipocas ao lado… deliciando-se do sofrimento alheio…

Que haja paz em Moçambique, hoje e sempre!

Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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