Textos A Noite em Maputo (A Usico ka Maputso)

A Noite em Maputo (A Usico ka Maputso)

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É sexta feira, são 19 horas na “cidade das acácias”, acácias que ironicamente são tao sofridas quanto o povo. Mas a cidade é delas, pertence-lhes, em suas raízes circula a história do povo!

As ruas encontram-se engravidadas de almas andantes, preocupadas em chegar aos seus domicílios. Automóveis buzinando, cobradores de chapa gritando, ensurdecendo os tímpanos da noite. Branquinhos e cinzentinhos (policias) tentando a sorte pelas ruas, já lá vão na quinta “caixa de refresco”. Jovens estudantes ainda uniformizados, quebrando recordes alcootras, uma rodada chama a outra… um tiro ou mais de, cigarros ou da erva da paz, fumo espalhado pelo ar, vai se misturando com o fedor de urina exalado pelas acácias. Ouvem-se risadas despidas das mulheres da vida e seus sacripantas. Sacripantas que fazem o país andar, a passo de camaleão, mas ele tem de andar. É a terra do “keep calm and txova xita duma”(Tenha calma,e empurre)! São entoados “hinos Pimba”e, em breve, euforicamente alguns passos de dança são apresentados.

Agarram-se, esfregam-se, retiram a vergonha da cara e a mesma é oculta em bolsas e bolsos. Ou ingerida de um trago só, ao sabor de uma Preta, 2M … para que volte assim que os efeitos secundários evaporarem.

O apinhado de gente e automóveis entre as ruas, vai se desfazendo em câmara lenta ou ao passo do serviço público Moçambicano. Mas nem por isso as paragens deixam de estar lotadas, chora a Mana Moça pelo seu telemóvel  É que minutos atrás fora grampeada por dois jovens que não aparentavam nem em sonhos, serem “gwadjissas” (ladrões). Pois que possuíam a fisionomia … dos Deuses gregos.

E mais um Madala (senhor) é pego com a boca na botija pela senhora sua esposa, apalpando as intimidades frescas de uma “vintinha”. A quarentona passava pela mesma rua onde o Madala tentava saciar a sua sede. Simplesmente tratou de travar a sua majestosa máquina, e partiu prá porrada! Contabiliza-se um pacote de tissagens no chão, a “Vintinha” chora, tenta se libertar das garras da Mamba. O Madala implora ao “Sobrenatural” por mais braços para que possa atenuar os golpes valentes da cobra, que é a senhora sua esposa. Faz-se um círculo em torno do incidente, ops, ora essa, não é que um dos subordinados do Madala está ali presente!? Aquele também o conhece, é o seu vizinho. E como tantos outros, vão seguindo a moda, não ajudam a separar, limitam-se a tirar fotos nos seus telemóveis, que imediatamente são postadas nas redes sociais, acompanhadas por uma versão “by me”! O Puto esta feliz, chovem-lhe “likes” e comentários nas redes sociais onde foram postadas as bombas e, em breve, e-mails serão escritos. Iniciam-se os julgamentos: “Fulano de tal não tem vergonha na cara…”, ”Mas a miúda não tem culpa”, ”Não tem culpa? Por acaso não viu anel? É bom…”

Falem a sério Maputenses, a vergonha da cara sai dela às 15:30, e depois disso o culpado dos dissabores da noite, é o acaso!
E lá vão as goias rumo aos lugares onde o chão é mais limpo, todas “txunadas” (elegantes), mas ultimamente há “goios” , e não se pode distinguir quem é quem só pela aparência, como diz o ilustre Niosta Cossa: “Hoje em dia qualquer Mampara(Tapado,fechado…) põe fato”. Sendo assim, fica difícil distinguir goios e goias de “gente normal”, estão todos encobertos por uma indumentária respeitável, mas as verdadeiras intenções da “Team Goiagem”, revelam-se assim que os seus militantes abrem as bocas, ”Alô fofo/a, brada… paga lá uma pah, pelas barbas do pai Samora… ”. Porém existem os “antichulas/os”, PHD’s em antichulisse, muito bem instruidos na matéria, ossos duros de roer! Mas caso o dia tenha sido bom, caso tenha sido acertado um “jack poot’’, O Dr. vai soltar uma lite, um duplo… acompanhado de alguns cohibas… E lá vão os Drs , discutindo o estado da nação… é que em Moçambique quem tiver licenciatura é Doutor, dai o termo ser tão frequente quanto cobrador, sapateiro, pedreiro…
“Vai um petisco? Uma cabeçada? Claro que sim pah, manda lá vir isso”, nesta ala as relações públicas são mais eficazes… moedas de cinco são juntas para “txayar”(tocar) um som dos Palancas, no “G-Box”. Os “niggas” batem umas geladas lá no bar, e na casa de banho a “Boina vermelha” (Tentação, bebida alcoólica) é aberta. O que importa é a paulada, quer-se paulada a todo custo! Esgotam-se os preservativos nas prateleiras, ”Usa camisa rapaz, com a menina, hei”, são os conselhos do “Patrão”, a surtir efeito!

“A ti N’gwavana ti dakwile ndjane” (as prostitutas estão bem grossas) como diz o Madala Tinito, aqueles copos que foram pagos outrora, serão rembolsados de forma erótica em algum lugar desses prédios cansados. Verdadeiros automobilistas da formula 1 voam entre as avenidas, rumo à marginal, onde sempre está a bater! Os fofinhos não se preocupam com o combustível que, vem maltratando os bolsos do pacato cidadão Moçambicano, ”Meu Pai paga esta merda”, ”Estamos em festas”. É que para algumas pessoas em Maputo, sempre é Dezembro! É só “show off’ ‘ interminável, lambuzam-se as goias nos que possuírem uma super máquina turbinada e, um colman cheio. Lá o hino é Palanca, as danças são Palancas, até a fala é Palanca… o Moz nem quer saber dos cronistas e críticos… ele curte “bwe” até o “mambo” lhe “cuiare”!

E pimba, socos capazes de meter inveja a qualquer um, até ao Júlio Máquina, o nosso Valente pugilista, são depositados na face de algum Felizardo. Dois jovens vão trocando habilidades das ruas, disputando um pedaço de carne (para não dizer Mulher sem cérebro). Os cornos ganharam um hino, e os provocadores conhecem-no então, porque não bombar em honra dos chifrados? ” Sabota essa cena”, enquanto isso o tempo vai passando, são 5 horas e não se nota cansaço na cara destes jovens, apenas tesão e a vontade de continuar com o “txilingue” a dois, ou “trois”!?

Rodopiam as rodas com jantes cromadas, assobiam os escapes e lá se vai a malta. Mas por ironia do destino, embatem violentamente em algum poste na curva seguinte e o condutor perde a vida de imediato! Todo álcool se vai da cabeça dos 3 acompanhantes que, nem sentem os ferimentos contraídos  Lágrimas quentes molham os rostos que há minutos atrás estavam radiantes e anestesiados de tanta adrenalina. Um suspiro tão jovem se foi e, hoje, mais uma Mãe fora desfilhada!

São socorridos os que ainda não partiram deste mundo diabólico, cada ser segue chocado até ao seu abrigo. Algumas almas passam pelo local, indiferentes ao caso. São sete horas e a vida já se iniciou, há quem tenha de lutar pelo seu pão. Enquanto isso, lágrimas vão inundando a alma de multidões comovidas, e o dia segue o seu rumo, tal e qual como o Senhor determinou.

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Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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