Textos Crónicas Amor Por Detrás das Estantes da Biblioteca

Amor Por Detrás das Estantes da Biblioteca

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O Amor entre Escribas

Há dias que o pequeno escritor havia decidido dar a cara para a sua amada. Estava mais do que na hora de se revelar… dar o passo mais importante, ” fazer-se à luz do dia”. Há mais de 6 meses que o Jovem Edmilson seguia discretamente a sua colega. Sabia que todo o seu esforço estava sendo valorizado, mas algo o inibia de seguir em frente e ganhar o que tanto sonhava… um beijo, um abraço, carinho, afecto… uma Mulher que ele estimava e que o deixava hiper inspirado.

O jovem escritor compunha-lhe poemas, prosas… sempre usando um pseudónimo, fazendo das palavras a sua máscara, nesse baile que se chama literatura!

E a jovem poetisa? Lia-o com agrado, esboçava milhares de sorrisos em cada estrofe lida, em cada vírgula em que sentia o suspiro do jovem escriba, o peso do seu sentimento. Nesses escritos as vírgulas faziam amor, os pontos embalavam as palavras em seu colo, as rimas pintavam o céu dos versos… tudo era arte, tudo era sentimento, paixão, e o prazer… em percorrer inúmeras linhas, tentando decalcar emoções que se apoderavam de si, de cada vez que se lembrava da bela rapariga de pele achocolatada, com formosura jamais vista por baixo do seu sol.

Mas ela também já se encontrava aflita em desvendar esse suave mistério que, caso fosse veneno, seria a mais doce passagem para a inexistência…

Quem seria o Edy Pessoa? De onde ele a conhecia? O que será que ele teria visto nela? Perguntas e mais perguntas sobrevoavam pela cabeça da Kareny.

Pobre donzela, nunca tivera coragem para o responder, pois sempre havia endereço electrónico em cada “carta”, para onde ela poderia enviar os seus escritos, pedindo o termino de tais actos,ou agradecendo, e porque não as duas coisas? Mas não, ela não o fez, pelo contrário, chegou a uma fase em que sentia falta do jovem escriba, no lugar de receber todas as 4ª feiras uma carta cuidadosamente escrita e carregada de arte, preferia que fosse um simples email a cada amanhecer…

Essa história assemelhava-se aos romances que ela escrevia e lia, só que dessa vez ela era parte integrante. O que seria que o destino lhe reservava?

Edy Pessoa , de tão tímido que era, precisou de duas noites mal dormidas para preparar a última carta para a sua amada, nela, estavam escritas nada mais e nada menos que estas singelas palavras:

“Cansei de ser a melodia agradável,

Na cega escuridão.

Cansei de ser a tonalidade insignificante,

Que dá ternura ao arco-iris.

Cansei, de fazer das palavras, o meu rosto.

De ser a brisa suave que não podemos ver, e nem tocar…”

Habitualmente, enquanto a jovem rapariga estava na euforia dos estudos… Edy depositava cuidadosamente a carta na mochila da Kareny, ou dirigia-se a sua casa e entregava à sua empregada doméstica em horário que, ele sabia que ela não estava, mas claro, sempre com intermediários, que na maioria das vezes eram crianças…

Mas a estratégia escolhida para esse dia foi diferente…

Como sempre a Jovem Kareny dirigiu-se para a biblioteca para mais uma sessão de investigação sobre Literatura… os grandes dessa arte a fascinavam. E o Jovem Bibliotecário, que por acaso era bastante simpático, sempre lhe recomendava livros interessantes. Shakespeare, Fernando Pessoa, Allan Paton, José Mouro de Vasconselos… entre outros. Nesse dia, Kareny dirigiu-se para estudar poesia de Shakespeare…

O Bibliotecário sorriu, disse-lhe que ela se fosse sentar e que em breve lhe traria o livro com uma excelente obra do ilustre poeta. O jovem abriu o livro até ao meio e meteu nele um envelope, seguidamente procurou a página onde estava esta obra de arte e entregou o livro aberto à rapariga:

“Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais belo e mais ameno

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás

E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.”

Kareny leu com o mesmo agrado de sempre, mas ao terminar, pôde sentir o estalar de papel entre o livro, procurou a proveniência de tal “barulho’’ e encontrou. Havia um envelope branco que exalava um perfume idêntico ao das cartas que ela recebia a cada 4ª feira. Seu coração quase saiu pela boca, olhou para os lados, o jovem bibliotecário não estava ali, e o restante dos estudantes já se havia retirado, a biblioteca estava vazia, tal e qual como ela apreciava. Abriu o envelope, retirou a carta e leu… Mas havia algo diferente, o nome estava trocado…

Soltou um leve suspiro ao sentir uma mão em seu ombro, olhou para ver a quem pertencia… Eis que o bibliotecário ali estava, Edmilson olhava-a com os olhos brilhantes, um brilho apaixonado de quem diz “Eis-me aqui, oh dama…”

Há momentos em que palavras são dispensáveis, há momentos em que o silêncio tem mais carga comunicativa que um milhão de dizeres… foi o que aconteceu no exacto momento em que Kareny pode juntar o quebra cabeça… E sem se dar conta, a jovem já se encontrava nos braços de Edmilson, O Bibliotecário, o Edy Pessoa … e duas línguas buscavam calor entre os dois corpos… nesse instante, dois escribas escreviam os seus sentimentos no silêncio, tatuavam as suas palavras no vazio dos sons… até sempre!

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Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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