Textos De que chorarei?

De que chorarei?

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Bem ao lado da casa dos meus pais, em Marracuene – Bairro Agostinho Neto, até tão pouco tempo atrás, vivia uma senhora com os seus 4 filhos menores e um adulto. A outra, que por sinal também é adulta, já havia sido lobolada há muito, encontrava-se no lar. Seu nome era Isabela, mulher camponesa que nasceu pobre e cresceu pobre. Isabela, mulher que tinha a pobreza como um ser, vivo ou não, possui uma penumbra. Fez-se viúva muito cedo, do primeiro relacionamento surgiram 4 filhos e depois foi aquela chuva de namorados ou sexo ocasional após as longas sessões de bebida alcoólica caseira, vulgo “três palavrinhas/ ton-ton-to” que acabou originando a sua última sorte. Mãe solteira com 5 filhos por criar, incluindo o mais velho que também não tivera ou desperdiçara a sorte de que era detentor. Inúmeros empregos deitados pela janela da preguiça ou arrogância… Isabela ia puxando o seu barco sozinha, de vez em quando contando com a solidariedade de poucas almas caridosas que a rodeavam.

Vivia numa pequena casa de caniço e chapa de zinco, material precário, tão precário quanto o estado das suas roupas e as dos seus filhos. Mas apesar de tanta pobreza, Isabela era uma mulher honesta e tentava direcionar do mesmo modo aos seus pequenos. Encaminhava-os a uma escola comunitária que lá se situa, e quando os mesmos precisavam de cadernos, esferográficas… caso não tivesse moedas para adquirir, simplesmente dizia: “Vá à tia Anita ( Minha Mãe ) ou a Dona Guida, (Outra vizinha nossa)… ou qualquer outra pessoa com quem tu te sintas bem, e peça. Eles vão te ajudar.” E as crianças lá batiam à porta, expunham o seu problema e a gente procurava solucionar. A pobreza daquela família era conhecida ao nível do bairro, mas a sua integridade não era questionada. Embora muita gente maldissesse pois ela era uma cliente assídua das rodas de álcool. Mas entende-se, até à maioria dos que tem um prato com comida decente, diariamente, o álcool é indispensável para afogar as magoas, quanto mais para alguém como ela, alguém a quem lhe é esbofeteada a face pela miséria, constantemente? Então Isabela entregava-se ao álcool e ao rapé. Pois lá ela sorria ou chorava, mas acima de tudo, sentia-se consolada! Aos domingos, quando era oportuno, dirigia-se à igreja mais próxima de modo conversar com Deus. Era “Mazione”, entregava-se às danças e aos cantos… lavava a sua alma e sentia-se igual aos demais seres humanos, sem distinções económicas e sociais… tal e qual o choro dos bebés ao nascer, tal e qual a energia das sementes ao brotar…

Do lado da casa dos meus pais, a vida andava, mas creio que andávamos ligados à sua vida, directa ou indirectamente. Era uma vizinha presente, sempre pronta a ajudar! Arduamente comprávamos folhas de repolho nos grandes mercados, para alimentar aos poucos animais que tínhamos em casa (porcos,coelhos…) e depois do camião descarregar aquilo que para nós era “excremento”, Isabela ordenava a sua filha mais nova para que colhesse as folhas mais verdes e com bela aparência . Depois de colhidas e “purificadas” pela água, eram devidamente confeccionadas. Acompanhadas com um pouco de arroz ou de alguma farinha, dava para enganar o estômago. A comida dos animais era a sua ceia, sua e da sua família! Tive de viajar para a Rússia e a deixei-os lá, em Marracuene, as suas vidas não mudaram… mais uma pontada, um golpe, a vida lhe pregou. A menina que outrora colhia as folhas de repolho destinadas ao animais dos meus pais, falecera vitima de doença. Em um mar de lágrimas Isabela se banhou, a vida tirara-lhe tudo e nunca dava nada mais, além de sofrimento.

Hoje, recebi uma mensagem da minha irmã mais nova dizendo: ” Mano, Bom dia, Dona Isabela faleceu hoje de manhã”. Senti vontade de chorar, mas não pude, não sabia eu se choraria de alegria ou tristeza. Sim, alegria… Isabela sempre confiou em Deus e dizia sempre: ” Há um paraíso para os pobres, a nossa tristeza um dia ira acabar e viveremos bem, como todo ser humano tem direito. Não chorem quando eu for a morrer…”. Como posso chorar se não sei porque choro, chorarei de alegria por ela ter partido deste mundo injusto e ido para um lugar melhor? Ou chorarei por saber que jamais a encontrarei assim que regressar a casa? Que jamais verei aquele sorriso e olhar esperançoso que me dizia: “Menino Mersito u bom ( estas bem)?”.

Digam-me vocês, de que chorarei?

Coragem a todas as Isabelas desta vida!

Descanse em Paz , dona Isabela.

MERSINHO – C.E.D

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Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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