Textos Reflexão Como a Cooperação e o Engajamento Chinês Ajuda a África a Desenvolver?

Como a Cooperação e o Engajamento Chinês Ajuda a África a Desenvolver?

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Texto de Dambisa Moyo[i] Traduzido por Pedro João Pereira Lopes[ii]

Como claramente assegurou o presidente chinês, Xi Jinping, em um encontro recente em Pequim, aquando da visita do presidente senegalês Macky Sall, este ano estabelece um marco importante nas relações comerciais entre China e África.

Este é o ano em que o comércio entre a China e a continente africano ultrapassou 200 bilhões de dólares, tornando a China no maior parceiro comercial de África, com cerca de 10 bilhões [de trocas comerciais] em 2000.

 “Que todos os parceiros testemunhem a vitalidade eternamente renovada da amizade sino-africana, a dimensão do potencial para a cooperação e a excelente perspectiva para o novo tipo de parceria estratégica sino-africana”, disse Xi para Sall.

Através de uma rede complexa de empreendimentos estatais e o engajamento directo do governo, os corredores sino-africanos representam um comércio robusto de todas as espécies de bens primários como produtos, minerais e petróleo.

China-Africa

Não é somente na África onde a impetuosidade do comércio chinês se faz sentir. Actualmente a China é maior parceiro comercial de países emergentes como o Brasil, Índia, Rússia e África do Sul. Uma vez que 64 países enfrentam um diagnóstico de alto risco de desestabilização social e política em 2014 – mais do que em qualquer outro período da última década – os fluxos do comércio chinês não são apenas um investimento bem-vindo na agenda de crescimento e redução da pobreza mundial, mas eles podem igualmente ter um grande impacto no adiamento da desestabilização e instabilidade civil através da criação de oportunidades de trabalho local para os mais pobres pelo mundo.

Durante a última década, o contacto e a incursão da China com a África e além-fronteiras basearam-se numa poderosa tripla-abordagem que envolve o comércio, o investimento directo estrangeiro (IDE) e ajudas generosas que, embora declinante, sua importância permanece considerável.

Foram estes fluxos significativos que colocaram a China firmemente no leme do discurso do desenvolvimento econômico em muitas economias emergentes. Por exemplo, dados do meu país de origem, Zâmbia, indicam que o investimento estrangeiro chinês (cerca de 2 bilhões de dólares no último ano), contribui com 10% para o PIB do país; e uma proporção significante para receitas do governo. Estes números transmitem aos políticos zambianos e outros em outro lugar, a impressão de que a China jogará sempre um papel exponencial no crescimento econômico e na redução da pobreza global, e pondo assim de parte os parceiros tradicionais de desenvolvimento (como os países desenvolvidos e as instituições multilaterais).

Uma vez que 90% da população do mundo vive nos países em desenvolvimento, a integração da China no comércio e investimento global é de particular importância para o mercado das economias emergentes com populações acima dos 50 milhões, onde, nas últimas décadas, o registo do crescimento do PIB – de um dígito elevado ou até dois dígitos – claramente desacelerou. Está previsto, para este ano, que países como Argentina, Brasil, Colômbia, Índia, Indonésia, México, Rússia, África do Sul, Turquia e Venezuela cresçam em redor de 3%, bem abaixo da marca de 7% que as agências internacionais de desenvolvimento acreditam ser necessário para reduzir significativamente a pobreza.

Assim, os políticos destes e outros países buscam na China a ajuda para combater muitas das características das economias em transição, nomeadamente, velhas e/ou infra-estruturas não-existentes, desemprego inflexível, particularmente entre os jovens, e miseráveis e inadequados serviços de educação e saúde.

De acordo com os dados da Heritage Foundations’ Investment tracker, em 2013, aproximadamente a 85 bilhões de dólares norte-americanos de investimento estrangeiro chinês foi distribuído pelo mundo. Embora seja verdade que nos anos anteriores o investimento da China tendeu tradicionalmente a inclinar-se para o sector de recursos naturais, hoje é notável uma diversificação transversal do portfólio do investimento do país. Os investimentos chineses são bem-reconhecidos e a sua estratégia, não somente de região para região, como também em áreas diferentes como imobiliária, bancos, finanças, seguro, logística e varejo, está a prosperar.

De um modo geral, o desenvolvimento da infraestrutura chinesa pelo mundo proporcionou um conjunto completo de estradas, portos, caminho-de-ferro, aeroportos e centrais eléctricas; mostrando um entusiasmo para investir até mesmo em infraestruturas onde o sector privado tende a ser desencorajado devido ao perfil relativamente baixo dos ganhos e a maturidade do projecto, que pode atingir mais de 50 anos.

Contudo, confiar somente na China para financiar o desenvolvimento e combater estes problemas agudos acarreta riscos significativos. Afinal, não é segredo que o perfil de crescimento econômico da China desacelerou consideravelmente, e agora encontra-se abaixo dos recentes máximos históricos (ainda que seja 7%). Além disso, desafios significativos permanecem em torno da reestruturação de uma economia que agora sente o peso de uma enorme carga de dívidas e um risco imobiliário que pode retrair a sua trajetória de crescimento. A desaceleração da China pode também ser a base de uma mudança na postura política, dos investimentos externos para a capital, sendo redirecionados de volta. Tal mutação deixaria muitos países vulneráveis ​​e reprimiria a agenda de desenvolvimento de tantos outros.

A política externa da China não está também isenta de polémicas. Acusações de dumping, fixação de preços, neocolonialismo e da utilização de prisioneiros em projectos-chave de investimento são bem conhecidos, porém muitas vezes difícil de provar. Estas críticas sugerem que a busca de um equilíbrio no qual os fluxos globais são definidos pela China não será linear ou graciosa, mas repleta de desafios.

Em suma, e por enquanto, a China continua a ser um potente motor de crescimento económico e um catalisador de crucial importância na redução da pobreza em todo o mundo, e é provável que se mantenha assim até a próxima década. As regiões como África, que acolhe a maior quantidade de terra arável da terra, tem muito a ganharem com a cooperação e o engajamento com a China.

[i] Dambisa Moyo é uma economista internacional de origem zambiana que escreve sobre macroeconomia e assuntos globais. Dambisa é a CEO e a fundadora do Mildstorm Group e autora de “Winner Take All: China’s Race for Resources and What it Means for the World” and “Dead Aid: Why Aid is Not Working and How There is a Better Way for Africa”. O texto foi traduzido do original “China Helps Africa to Develop”, publicado no dia 31 de Março de 2014. Aceda em inglês através de http://www.huffingtonpost.com/dambisa-moyo/china-is-helping-emerging_b_5051623.html. Título da responsabilidade do tradutor.

[ii] Pedro João Pereira Lopes é escritor, professor universitário e pesquisador. As suas áreas de pesquisa envolvem as relações China-África, pobreza e desenvolvimento e distribuição de riqueza. Contacte através de [email protected].

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Pedro Pereira Lopes é escritor, docente universitário e pesquisador. Fez rádio, música e criou os blogs "Kumbukilah" (2009), "cadernos de haidian" (2012), "Entre Aspas Escritor (2013), entre outros. Editou a web-revista de literatura jovem “Lidilisha” e assina a coluna "Vão homens ao meu lado distraídos", no jornal "Debate". Tem formação superior em Administração e Políticas Públicas.

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