Textos Crónicas Eu Nasci Na Cadeia

Eu Nasci Na Cadeia

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Em Dezembro de 2007, nos meados do mês. Não me lembro exactamente do dia, mas acho que foi entre os dias 14, 18 por aí, estava eu com o coração nas mãos. Confesso que tinha a ver com a transição de ano. Não me importava tanto estar no lugar em que estava, o que me doía era ter de passar o final de ano naquele covil de transgressores da lei. Eu estava preso! Era Dezembro e eu estava encarcerado em uma das celas da PRM, por condução ilegal e em estado de embriaguez, e para aumentar o meu desespero e dos meus progenitores, havia sido o causador de um acidente patético. Por vezes as coisas más vem umas atrás das outras. Não sei se servem para medir nossas forças, ou para gracejar do nosso ser. A verdade é que deu uma rasteira na muleta que ajudava a família a caminhar.
É difícil para um jovem mudar de estilo de vida bruscamente, é difícil para um “janota”ter de tornar-se simples e humilde de um dia para o outro. O milagre “da água para o vinho” aos olhos de muitos foi um simples “flash” mas só Jesus e seu reino sabem como é difícil fazer acontecer tais milagres em uma terra sem Fé. A mudança sempre existiu e existirá, mas ela não acontece se não houver vontade.
Ali estava eu, preso. Pela primeira vez havia sido algemado, depois de ter soprado o balão pra medir o álcool. Em Moçambique, em Dezembro, Ka hissa tinga teke  (aquece muito). A cela era uma só e dentro dela estava o bafo de 26 homens, e eu la também, fumando a fedeira dos “fora da lei” de onde fazia parte.
As conversas na cela são como confissões em uma capela. O pecador é o orador e o padre os ouvintes. Ouvem-se confissões de todo género. Desde os estupradores, batedores de viaturas, traficantes, fanáticos de telefones, bêbados reguilas… Todo tipo de imoralidades está ali presente e cada um se sente obrigado a contar a sua aventura, a revelar segredos que nem a sua sombra sabe. Era Dezembro e eu estava preso, não pude fugir às regras da djele (cadeia) também tive de dar a minha versão, assim que cheguei perguntaram-me:

– ‘’Hawe Mpfana  u entxile yine” (miúdo, o que foi que fizeste)

Sempre me disseram, ao entrar em uma cela, nunca se atreva  a contar um filme romântico. Como disse o Filósofo Montesquieu: ”O homem que quiser vestir-se de ovelha em um covil de lobos, estará decretando o seu próprio fim”.
Ora bolas, eu era uma ovelha, mas tive de tornar-me em um lobo e não passaria a noite ao lado da pia. Isso mesmo, ao lado da pia, sofrendo todo tipo de insultos e humilhações!
Assim que entrei, um garanhão careca e todo musculoso de nome Brazão, a transpirar, de olhos bem vermelhos, fez-me a pergunta:

– Hawena mpfana,kasse u entxile yine? (Miúdo, afinal o que foi que você fez?)
– Epah,makwero, ni yivile mova hala marrakwene, va ni txatxile ni ma poyissa anteeeeee…jardim”(Irmão, roubei um carro na zona de Marracuene, fui seguido pela policia até ao bairro do jardim).

Na cela abafada soou um grito uníssono de admiração e alguns risos. Não me lembro de ter visto tanto amarelo junto quanto naquele dia. Que bocas! Todo preso pulou da esteira.

-Xeeeeeeiiiiii!
Gritaram eles, terminado o grito um deles falou:
– Hawe mpfana,uli yine? U buya hi marrakwene?  (Miúdo, o que dizes? Vens de Marracuene?)
– Xeeeeeee, você trabalhou puto! Estavas zgalhar quantos Quilómetro por hora?
– Eu bati 200km por hora, Makwero (Irmão) cheio de policia aquilo, parecia estavam a acompanhar presidente, eu a zvunar muito malu. Os gajos a fazerem barulho com aquelas cenas que acendem ”TOINHOMMM, TOINHOMMM… ” A LOKU NI KALUTA ZONA DO BENFICA DJON, CA MERCADO (quando passei pela zona do Benfica, no mercado), a va mamane. va papai, ni va mpfana, vobah mikulungwana (as senhoras , os papais e as crianças só bateram palmas) a essa hora eu xto andarii hen? Yaaaaaa eu a zvunar muito malu, os gajo estavam a render! Então para me sustarem nem, começaram a disparar, acertaram no para choque. Então, então eu abaxei  so, mas estava muito speed djon a bazareee soooo… quando chega zona do jardim caramba pá. Estava cheio, um caminhão tinha capotado, porontxo, cortou xtrada eu não podia passar. Sabe o que fiz? Eu tinha uma garrafa de tentação gin (bebida alcoólica) no bolso. Bati a gaja one time abri a porta, pus as mãos na cabeça e me entreguei!
“Plas. plas, plas.. ”Salva de palmas ecoaram na cela. Axo que os policias davam por nós como dementes, como é que poderiamos fazer festa em um ambiente daqueles?
-U tizile mpfana, na ku respetara barrada, namuntlha unga ta etlhela ca xicote. (Trabalhaste miúdo, respeito-te. Hoje não iras dormir na casa de banho!)

E assim foi, esta foi a minha versão. Acho que a imaginação de escritor já bailava em meu ser há muito tempo, eu é que não prestava atenção! Só assim me livrei de passar os meus dias ao lado de uma pia e ter de limpá-la. Aquilo era horrível, com o calor infernal de Dezembro, as necessidades maiores e menores eram ali feitas. Ali mesmo a gente tinha as refeições, tomava banho, bebia a água. Por vezes nem essa existia. Ficávamos com o suor preso nos corpos e a garganta seca. As celas não são presídios. Não há refeições disponíveis, se não tens amigos ou familiares que sintam pena de ti, e te tragam mantimento, passas o pior que pode existir. Desde o psicológico ao físico. Existem grupos dentro das celas, compartilham-se as refeições em troca de protecção e cigarros. Há quem não tem nem um grão de arroz por dia, mas consegue ter cinco ou mais cigarros. Estes são sagrados, o fumo penetra-nos e leva todas nossas frustrações. Cigarros passados de boca em boca, um tiro ou dois pra cada um. Eu não pude fugir a isso. Deixei de ser uma ovelha revestida de lobo e tornei-me em um lobo de facto, sem qualquer revestimento. Eu havia sido o causador de tudo que estava passando, e para mim os culpados eram os outros, era o destino. Aquelas ideias ficavam martelando-me a mente de hora em hora. As celas foram feitas para fazer com que te sintas um verme. Indigno da liberdade, de compartilhar o ar puro com gente decente!
No terceiro dia eu já estava abatido por dentro e não havia qualquer sinal de luz. Era como se estivesse estado ali a minha vida inteira. De noite, eram contadas histórias, aventuras de cada um. Sob a luz de velas fazíamos o nosso “karingana wa karingana” ( historias contadas à volta da fogueira) Fiquei a conhecer a historia do “G-MAN” o ladrão que teve um caso com a filha do general. No dia seguinte queríamos todos ouvir novamente a aventura, mas o contador de histórias não pode, estava sem forças, não havia comido e nem bebido o dia inteiro. Conversei com um jovem de 15 anos que era o lider de uma gangue de estupradores. Havia violado uma senhora e esta havia perdido a vida, falava disso com tanta naturalidade. Sentia prazer em assumir-se como violador. Por mais lobo que eu fosse passaram-me várias perguntas pela cabeça. O que seria que havia marcado a um miúdo daqueles? Que tipo de infância havia tido? Que prazer ele sentia em violar alguém, não sentia compaixão pelos parentes da malograda?
Comecei a sentir nojo de mim próprio, analizando-me. As paredes da cela converteram-se em um cubo de espelho com a minha imagem reflectida em todos os cantos. Ao fechar os olhos surgiam as minhas atitudes imaturas, ao abrir lá estava eu pelos quatro cantos do cubo. Sentindo vergonha do meu próprio ego!
Pela primeira vez eu liberte-me pelo caminho da escrita. Foi ali que ela nasceu. Pedi uma esferográfica emprestada e um papel. Escrevi uma pequena carta aos meus pais. Disse-lhes tudo aquilo que estava passando e achei que esse mal me era devido, pedi desculpas pelas ofensas ditas… ganhei liberdade que nem um mundo de cigarros poderia dar. Pela primeira vez eu escrevi e senti adrenalina da inspiração percorrendo-me as entranhas. Finalmente cheguei ao momento triunfal do galope e terminei com um suspiro profundo!
A porta da cela abriu-se, depois de dois dias o sol iluminava as paredes sujas daquele asilo. Um policia gritou:
-Motorista de Marracuene.
O nome foi pronunciado por mais umas 6 pessoas, como se eu estivesse distante. Levantei-me julgando que era o tão esperado momento. Liberdade! Mas estava enganado, o policia entregou-me simplesmente uma tigela com alimentos, agradeci e lembrei-me da carta que escrevera. Entreguei-lhe e disse que era para os meus pais. Tive uma noite razoável , consegui adormecer como se estivesse no ninho que me criara. Na tarde do dia seguinte o sol estava menos forte, todos os reclusos estavam sentados e viajando em seus pensamentos. Há algo que me marcou bastante, Deus fez-nos uma visita por meio de um perigoso cadastrado. Como se ele tivesse sido possuído por uma força benigna, no meio do total silêncio, Brazão levantou-se e começou a orar.
“Pai olhai pelas pessoas pobres meu Deus, dá mais comida para pessoas que nada tem.Emprego para os desempregados, pai, olha pelos doentes, cure eles meu pai. Eu sei que você vai me escutar, que estás aqui neste fim do mundo. Meu Deus e nos… perdoe os nossos pecados meu Deus. Somos dignos de estar aqui onde estamos, merecemos este sofrimento. Nos de um rumo. Nos perdoe meu Deus…”
Ninguém ficou indiferente a este gesto, Brazão havia dito palavras que todos nós carregávamos em nosso interior.Todo nosso silêncio e reflexões naquele dia foram abrigar-se nas palavras de Brazão.
Terminada a oração, voltou tudo ao silêncio. Do nada, senti-me a cantar uma música do Michael Jackson de que gostava tanto quando criança. ”Heal the world”


“Heal the world
Make it a better place
For you and for me
And the entire human race”
Cure o mundo
Faça dele um lugar melhor
Para você e para mim
E toda a raça humana

Alguém cortou-me enquanto eu cantava. Era um velho, o chefe da cela! Perguntou-me se eu conhecia o significado da música e eu disse que não. Que apenas gostava da melodia.
O velho esboçou um sorriso e em seguida explicou-me o significado.
– Essa música veio mesmo lavar as nossas mágoas, serve para nós pensarmos. Nós podemos tornar o mundo em um lugar melhor. Se nos importamos com a vida, devemos criar um espaço, fazer dele um bom lugar para viver. Curar o mundo.

Agradeci o ensinamento e prometi que o guardaria para sempre e assim foi. No quarto dia, pela tarde, estava eu dormindo. Fui acordado por mãos calejadas, porém carregadas de um calor carinhoso. Era o meu colega de esteira.
– Motorista, Motorista, vai para casa Motorista, xtão ti chamar Motorista de MARRACUENE!
Levantei-me correndo, o coração batia a mil. Estava tão feliz, mas ao mesmo tempo sentia que algo me prendia. Os irmãos que ali ficaram foram pessoas muito importantes para mim, deram-me ensinamentos de que até hoje faço uso. Naquele lugar eu nasci como escritor. Gatinhei… foi o ponto de partida para este mundo que tanto amo. ESCREVER!
Tudo que saiu dos meus lábios foi:
-Ninga ta dzivela va makwero – Não me esquecerei de vós irmãos.
Saí e peguei nos meus pertences. Lá fora estava o meu pai me esperando. Esperava encontrar rancor, ódio, bravura… mas tudo que vi e senti foi compaixão!

Enfim, é uma parte da minha vida muito especial. Não mudaria nada do que passei caso esse poder me fosse concedido! Meu sofrimento deu-me conhecimento e maturidade.Tenho respeito pelo meu passado, pois me faz ter orgulho do meu presente. ”Eu nasci em uma cela”. Não mudaria isso por nada neste mundo!

Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Só gostei da segunda metade do texto o resto ta uma bagunça que só. não fique publicando sua biografia aquí cara. naum fique escrevendo como se todo mundo conhecesse vc. se vc tivesse escrito isso na 3ª pessoa taria melhor. leio o blog pelo reader.

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