Realidades Ocultas

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Eram quatro horas quando Mariana despertou, estava sem sono! O que era muito raro acontecer em uma manhã de segunda feira, mas há quatro meses que isso vinha se repetindo, em alguns dias da semana. Mariana estava grávida já há 6 meses. Aquela mulher que outrora fora uma autêntica “curtidora”, amiga das noites, livre e desimpedida, tornou-se em uma mulher caseira e com a sensibilidade à flor da pele. Ao dirigir-se ao seu posto de trabalho, lá pelas 7 da manhã, ia observando os meninos que se dirigiam às escolas, todos uniformizados, com soninho fazendo-os cambalear a passo de anjos sonâmbulos. Aquela corrente de “pessoinhas” indo batalhar por um futuro, tão cedo, deixava-a comovida e meio triste. E ela tinha dois deles em seu ser, estava grávida de gémeos e todos os dias orava a Deus para que não lhes faltasse nada, desde o bem emocional, ao material.

Embora fosse segunda feira, Mariana estava bem disposta, mas algo a machucava, não sabia bem o quê. Saiu e foi apanhar um pouco de ar frio na varanda, enquanto via idosos que tão cedo se deslocavam para os seus postos de trabalho. A vida não sorri para todos, a quem foi recebido no mundo com um aceno pejorativo. Pelo frio que se fazia sentir, antes do sol sorrir, já havia pessoas pessoas andando a todo gás, conversando alegremente sobre os passos que a vida os obriga a dar todos os dias. Mas, alguns dirigiam-se para as suas casas, nesse caso, os guardas… Mariana pensava nesse corajoso e arriscado emprego a que muitos tinham de se sujeitar por não ter alternativas. Enquanto a maioria das pessoas dorme, são os guardas quem velam pelos nossos sonhos, pois sem vida, eles também não existem. E nos últimos dias, os ladrões não estavam para brincadeiras, quem ousar fazer-lhes frente, leva chumbo… e mesmo assim, estes nobres homens cumprem o seu dever, arriscam a sua vida para garantir o seu pão, e o nosso bem estar!

Mariana pensava, enquanto acariciava o seu barrigão, fruto do seu amor, e tolerância:

“Triste vida, sociedade ingrata… estes guardas olham por nós enquanto dormimos, pelos nossos bens. Arriscam-se a perder a vida pelos seus. É um acto heróico que a sociedade teima em não ver. E ainda há gente que os trata mal. Meu Deus, tenho duas crianças em meu ventre, seja lá qual for a profissão que tiverem no futuro, eu irei me orgulhar deles. Se hoje eu tenho um salário estável, que me permite sustentar certos caprichos e ajudar o próximo, amanhã posso acordar sem essa bênção. Pois tudo nessa vida é passageiro, tudo faz parte dos suspiros do tempo”.

O sol já espreitava a capital, quando ela e as suas reflexões matinais, estavam em total harmonia. Mariana teve de se preparar para dirigir-se ao trabalho. Queria chegar um pouco mais cedo, para evitar o trânsito. Em uma cidade como Maputo, onde o sector automóvel tende a crescer assustadoramente e faz com que o trânsito fique insuportável. Ainda mais com os magníficos “pilotos” da formula 1, os vulgo “chapeiros”, tudo fica mais caótico. Para evitar atrasos, Mariana saia sempre cedo, enquanto observava a vida a andar entre os passeios da capital.

Chegada ao seu posto de trabalho, o guarda observou-a e imediatamente tratou de abrir o portão. Mariana apenas agradeceu com um gesto da cabeça. No trabalho, ela era dada como uma chata, sempre com a cara amarrada, de poucos risos. A maioria da gente julgava-a anti-social, até amores secretos já tivera. Mandavam-lhe postais e buquês de flores, mas nos cartões, nunca estavam escritos os nomes, apenas um magnifico poema de um tal “Zé desconhecido secreto”. De início até que foi divertido, toda mulher adora gestos do género, mas depois isso começou a cansar, pois o “Zé desconhecido” descobriu seu número de celular (privado) e importunava-a pela madrugada. Certo dia, veio com uma foto e colou na sua porta, no retrato havia uma mulher grávida e lá estava escrito “ESTOU GRÁVIDA DE 2 MESES E AMO O MEU ZÉ CONHECIDO”. Após o sucedido, nem rosas, nem sementes de roseiras, foram apresentadas em seu escritório.

Logo a entrar na sala que dava para o seu escritório, Mariana foi alvo de cumprimentos por parte dos colegas, a quem respondeu em um tom meio morto. Assim que ela abriu a porta e entrou, murmuravam “tomara que os pestinhas dela não tenham tal falta de humor”

Por de trás da porta, Mariana deixou-se cair na sua cadeira e afogou-se no trabalho. À segunda feira sempre parece haver carga triplicada! Somente pelas 10 e tal, a hora do pequeno almoço é que se deu conta do quanto havia trabalhado, escrevendo relatórios para o seu superior. Estava já a terminar o seu balanço semanal quando foi interrompida por gritos que vinham de fora. Levantou-se espreitou pela janela. Lá estava um indivíduo de origem asiática ralhando com o guarda, em inglês! Tentou ficar mais atenta para entender o que ele dizia e conseguiu:

“Filho da Mãe… porcaria de ti, seu preto de merda, macaco. Como é que não sabes abrir o portão como deve ser… isto riscou-me o carro. Vou descontar do teu salário filho de uma prostituta, verme…”

Mariana não conseguiu-se conter, mas de uma coisa estava certa, seja lá qual tivesse sido o motivo que levara o estrangeiro a falar assim ao nobre guarda Cossa, não era justo decompô-lo, ainda mais agindo covardemente, falando em uma língua que o pobre coitado nem sequer entendia. Mariana saiu fula do seu escritório e bateu com a porta. Seus colegas, todos, pararam de trabalhar e olharam o “vulto”que passava com fúria. Logo puderam adivinhar, ”há problemas”,correram todos atrás dela para ver o que se passava.

Como era de esperar, o asiático continuava descompondo o velho guarda com o seu inglês de segunda categoria. O coitado do guarda olhava-o com os olhos húmidos e em gestos suplicava por perdão. Mariana chegou como um furacão e gritou-lhe na cara, no mesmo tom que ele usava para o ofendido – Julgas que pelo facto de seres “superior” na empresa, te dá o direito de o ofenderes de tal maneira? Não sei se reparaste, mas estás em África, aqui todos somos “macacos”, como dizes. Quem pensas que és para te dirigires desse modo às pessoas? Podes muito bem ter um salário acima do meu e do dele juntos, mas não estás acima da lei. SÓ MAIS UM PIO, pra veres o que te vai acontecer, VOU TE PROCESSAR por racismo e agressão verbal e psicológica no ambiente de trabalho. Abre mais a boca, para veres se estou a brincar!

O nobre guarda olhou-a admirado. Alguém que raramente falava havia saído em sua defesa. Não pode conter as lágrimas que há muito teimavam em sair, virou-se e entrou na sua “casinha”, onde se deixou quedar no banco duro de madeira, com uma mão limpando a face. Assim que Mariana deu as costas ao asiático e ao guarda, deu de cara com os colegas que espreitavam a cena como se estivesse havendo uma briga física. Mas ela nem quis saber, havia feito aquilo por ela em primeiro lugar, mais que pelo próprio guarda, ou para ter gratidão dos colegas. Pois aprendemos a ser humanos todos os dias, não há melhor escola que a vida. Respeitar o próximo é aprendizado que começa no berço e com os anos se aprimora.Cada profissão tem a sua utilidade e somente com respeito entre os homens que as exercem, o mundo pode andar progressivamente, em paz e harmonia.

Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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