As confissões de um chapa 100

As confissões de um chapa 100

Eu sou o “Chapa”. A minha lotação mínima é de 15 ou 35 passageiros, sentados, parados, inclinados, e ensardinhados (só de pensar, fico com dores nas suspensões e eles nas colunas e articulações). Em mim, cabem até de 28 aos 50 passageiros, pois sou como coração de mãe, mas com autoridade de pai.

Em mim, com os meus passageiros, convenientemente suportamos de tudo: do bêbado fanfarão, o mau hálito dele ou dela (logo ela, como é gira, mas o hálito!), a catinga mal cheirosa, a gorda que ocupa 2/1 acentos (mas paga por um), as conversas sórdidas das adolescentes (não só), o pior calão da última categoria, as mentiras gigantescas, os vocábulos poluídos dos Académicos-pobres, até o som alto das colunas a mim incrustadas – que tornam a viagem o máximo incómoda possível. E, ao olharem pelas janelas, para fora, conseguem ver as D4ds pilotadas por crianças, e os Vitzs dirigidos por outros, num conforto de segunda mão, que cobiçam, mas que não podem ter, sem recurso aos roubos dos das taxas juros da banca, e outras formas…

O cobrador, meu Deus – aqui até o motorista não vê “game”, pois este me dirige da sua posição original! O cobrador, cantarola e paparica o cliente até tê-lo, porém depois: grita, esperneia, dobra, empacota, o máximo de queridos passageiros, pois devem levar à receita ao Patrão. Não a receita do hospital, ou do bolo da vovó, à das quantidades vezes o preço unitário. Eles nem querem saber de lucros, o seu negócio é à receita. Ter dinheiro trocado, é a sua exigência, na matina, ai de ti… E ele pode ficar com os teus trocos, se forem um, ou dois meticais, mas ai de ti…

¬ Estás a reclamar muito por causa de um metical, hawena!l – mas não aceitam que viajes dentro de mim, sem um metical a menos. Passageiro, 4 – 4, vamos embora, aí: 5-5, tem mais espaço, kwela!

Não passo próximo à inspecção de viaturas, suborno à patrulha, na verdade o motorista é quem o faz, quando os “Chefes” nos param, e dizem que estamos ilegais (têm sempre um argumento para essa tese), mas um cinquetinha entre à carta de condução e o medo de perder o pão, safam-nos, a nós e aos “bufos-famintos”. Quando os barrigudos nos abusam, nós entramos em greve, e lixamos o Povo. O Zé-Povinho perdeu emprego, quando entramos em greve, por justa causa, e ninguém sabe como morre-de-fome a sua família. Talvez, eu disse talvez, com as descobertas do petróleo, os preços dos combustíveis sejam mais acessíveis para os outros, disso não duvido, que haverá greves, subornos, agitação, não duvides, tu.

Há vezes que temos que fugir “das estradas nos buracos, ou dos buracos nas estradas”, e cumprir a jorna de trabalho com os ziguezagues, das 04:30 da matina às 19:00 horas da noite (e os chapeiros e cobradores voltam de chapa para à casa), sem lubrificarem-me e sem descanso. Eles (o “chapeiro” e o cobrador) não se alimentarem devidamente, mas com algum zelo, cumprimos com a missão de transportar os cidadãos, as suas vidas e cargas, de um ponto ao outro, na capital da pérola do petróleo e dos recursos naturais. Mas por qualquer obséquio os passageiros gritam, nos esperneiam, não nos respeitam, mas pedem alguns “toques” em locais inapropriados, egoístas, e nos damos, quando podemos – mesmo que cortemos as prioridades alheias, andemos nas bermas e passeios, desrespeitando toda sorte de sinalização e regras de trânsito, os fins quase que justificam os meios (será?).

Por essas e outras razões que os chapeiros são os meus heróis, pois levam e trazem homens, crianças, velhos, mães, e pais, e outros, dos pontos de partida aos pontos de destino – quando o fazem com prudência e zelo. E graças a nós, vocês vão e voltam dos locais de trabalho à casa, e conseguem alimentar às vossas famílias e cuidá-las. E à tarefa nobre de cuidar de vidas, só pode ser conferidas à heróis, mas não perfeitos, esses são os meus heróis, os que fazem bem o seu trabalho, termino assim a minha confissão e já oiço:

– Baixou-baixa, Xipamanine, Museu, Laulane, Matendene, Machava…. E outra sorte de gritos de invocação de passageiros, até aos cíclicos acontecimentos.

Sou Cremildo Fernando Eduardo Magaiza, com 24 anos de idade, nascido na Cidade da Matola, Província de Maputo, licenciado pelo Curso de Comércio - pela Universidade Eduardo Mondlane, e aspirante a escritor. O género literal pelo qual me identifico é a Prosa, o Romance, e tenho como inspiração o Irving Wallace, o Ungulane Ba ka Khosa, o Mia couto, e o Paulo Coelho.

13 COMENTÁRIOS

  1. chapa, chapinha….vc e os seus colegas são memos heróis. Até n "velhice" vc não perde forças de cuidar de nos. Longa vida p vc!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here