Textos Reflexão Se os mortos pudessem ler…

Se os mortos pudessem ler…

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Por vezes, tanto nos atarefamos, abismámos-nos no mundo e em suas vaidades que, acabamos esquecendo o quão breve é a vida. O quão breve e preciosa ela é! O quão trágico e marcante pode ser ocultar um gesto, uma palavra de afecto, solidariedade, ou até o um simples sorriso. Viver é urgente, mas saber e reconhecer o verdadeiro sentido da vida é mais urgente ainda.

Se arrependimento matasse cadáver eu seria. Magoa-me profundamente assumir que um dia, num passado não muito distante, feri corações de pessoas que amo com uma simples palavra. Um simples gesto e, se calhar, com uma fria imobilidade. Profundamente magoado sinto-me eu por ter engolido certas palavras que, de certa forma, poderiam ter feito a diferença na vida de alguém.

Os papeis onde escrevo não respiram, não falam, se quer sonham ou sofrem… não passam de uma tumba para todas as minhas reflexões. Ai… se eu pudesse dar vida a estes escritos… encaminha-los aos receptores desejados, leva-los com todo timbre de sentimentalismo que de mim se apoderou ao escreve-los, não seria homem mais feliz do mundo mas, de certo que tornar-me-ia num ser humano mais esperançoso. A ideia de purificar-me de todas as minhas injurias, mostrar-me ia a tal luz no fundo do túnel.

Que poderá o coração deste homem desejar, senão alcançar, ao menos oralmente, a todos aqueles que deste mundo já não fazem parte, e que do seu mundo fizeram parte, um dia?

Acreditar numa vida futura consola-me, crer que um dia poderei reviver, rever certos rostos, conforta-me. Assumir que tenho de fazer por merecer estimula-me ao progresso, como ser humano. Livra-me, embora inconstantemente, de um estado vegetativo.

Queria eu que os defuntos pudessem ler… No lugar de flores, cobriria os seus sepulcros com milhares de linhas, milhares… e nelas retrataria toda a minha nostalgia, amor e apreço. Faria perguntas, ainda que não me pudessem responder… Mas é tudo ilusão, é tudo ilusório. Tenho de contentar-me com estas páginas brancas, puras, até ao momento em que suspiro pela ultima vez, no momento em que ponho um ponto final, no instante em que viro a página.

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Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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