Textos O Arquitecto de Ilusões

O Arquitecto de Ilusões

COMPARTILHE

Desenluto-me sem vigor algum, com uma constipação ocasionada pela imoderação de piripiri no caril de peixe. Reconheço que não tenho sido muito feliz, aliás, a maioria das pessoas não é tão feliz ou infeliz quanto pensa ser. A criatividade é uma dança e eu tenho ignorado vários passos. Combinar a arte com a emoção já não me parece ser muito instintivo, sinto cada pé de verso como um chifre de azagaia na carne, escoando os meus sentimentos juntamente com os filetes de sangue que me escapam do peito em esguicho. Tenho perdido tempo, teorizando, e depois fito o rosto mascarado que vejo no espelho, como Narciso desnorteado, contudo não enamorado, sou o sujeito sem predicado que não se complementa, um rosto que não se reconhece, sem memória. Imagino-me, sou um louco que não gosta de assobios, que sonha com ‘Áfricas’ com novas hipóteses – o efeito borboleta –, que equaciona o Paradoxo de Epicuro para explicar as costelas que brilham no tronco maltrapilho daquela criança de beiços gretados.

 O Arquitecto de Ilusões

Ler a “Insustentável leveza do ser” pode não ser tão prazeroso assim, o livro exige uma alma ilimitada e madura. Kundera não escreve simplesmente uma ficção, cada parágrafo de seu texto parece ser um chamamento. Ele chama a vida, o peso, a gravidade, a felicidade, o retorno, a natureza, a compaixão, chama o homem que sou eu a fazer a vida valer a pena de ser vivida, e viver cada momento como se fosse o último, o ‘carpe diem’ de Horácio.

A casa abrigava crianças especiais, na maioria crianças órfãs especiais, cada uma reclusa em uma especialidade. Deting tem a espinha bífida, Xuyang sofre de hidrocefalia, Mingxiang tem talassemia e Minyu não se move devido a hemiplegia. Adoravam receber visitas, os seus rostos rosados emitiam várias alegrias e vários pontos de interrogação com críticas distintas. Aliviadas, repentinamente, de suas fraquezas, a comunicação não lhes coibiu de venderem, gratuitamente, aos meus amigos e a mim, a paz, a inocência, a esperança-sol daquele dia. As nossas câmaras deliciavam-nas como sorvetes, e Chichorros curiosos, foto-vida-ram, em posições inverosímeis, os gestos e risos e vozes daquela tarde. Yin tem os músculos das pernas e das mãos atrofiados, não tem pés e apenas um dedo na sua mão direita. Com esforço e prazer, ele apoiava a câmera entre o peito e o queixo e, contorcendo-se, disparava o flash.

Depois, no playground, senti os olhos embaciados, embaciei também as lentes e pensei que uma chuva se avizinhava. Não, eram lágrimas, o orvalho dos meus olhos madrugava, e como coelho espertalhaço, lambi-lhes logo com os dedos da mão. Senti-me outra vez feliz, feliz como não me sentia há dias, ou quiçá meses, um coquetel molotov explodira em mim, dinamitando a montanha que me desviava da luz.

Deixei o recinto principal depois de pôr uma nota de 20 Yuans numa caixa. O vento assobiava, sorri, eu era o louco que odiava assobios. Arrumei os earphones e aumentei o volume da música, no fundo, Renato Russo explicava: «É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…»; ‘Mazal tov’ – disse eu para um sujeito indeterminado.

Profile photo of Pedro Pereira Lopes
Pedro Pereira Lopes é escritor, docente universitário e pesquisador. Fez rádio, música e criou os blogs "Kumbukilah" (2009), "cadernos de haidian" (2012), "Entre Aspas Escritor (2013), entre outros. Editou a web-revista de literatura jovem “Lidilisha” e assina a coluna "Vão homens ao meu lado distraídos", no jornal "Debate". Tem formação superior em Administração e Políticas Públicas.

COMENTE PELO FACEBOOK

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA