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O Suicídio do Poeta

Café Scala, 1963. O homem sentou-se, os três poetas imitaram-no: uma negra achinesada e dois brancos de Moçambique. Quatro poetas sentados à mesma mesa, partilhando o mesmo café e a mesma cadeira. O homem sorriu, tinha-se Laurentino, filho respirante de Ibo, de alma insular e índica, alma branca de m’siro mas preta em desregramento para ser des-suailizado. O sorriso parecia admirar o movimento, as cadeiras vazias, as gargalhadas fantasmas dos poetas de tantas Mafalalas; depois pôs-se a observar as montras ocas do café-pastelaria, em nome do saudosismo, pressentindo o futuro. Lourenço Marques arrancava-lhe suspiros, mas ais do que a prisão, ruas babilónicas, savanas de negros e mulatos e brancos, e depois vinham os monhés, o álcool, o sexo e a Polícia Internacional e de Defesa do Estado: a corja de satanhocos! Não se decidia se ficava no Scala ou se abalava, apetecia-lhe mesmo um passeio pelo ‘Vasco da Gama’, respirar, uma última vez, aquele murmúrio de ar verde, muito verde, tranquilo, surdo, um baile de madrugada ao amanhecer. Espreitar uma última vez o ‘Gil Vicente’, ficava mesmo perto, teria recordações para se eternizarem durante a vida toda.

Continua…

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