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Quatro motivos para ler “DESdENHOS – Temas Infantis para Adultos”, de Hélder Faife

Para início de reflexão…

Há escritores que são aclamados pela sua produtividade, corte da palavra ou repetição de motes e géneros. Hélder Faife (HF), por ora, não pertence às categorias aludidas, por opção ou por fatalidade: é poeta, contista, cronista e mais ou menos coisa. HF não escreve para ser escritor, segredou-me certa vez, não sabe não ser escritor. É por este intento, atrevo-me a sugerir, que os seus objectos escritos são fortuitos, um exercício de redefinição do seu paradigma enquanto criador. Creio que se HF não fosse capaz dessa metamorfose, talvez também não mais publicasse, como fez Raduan Nassar, enrodilhado num perfecionismo enfermo, egoístico e, acima de tudo, desvirtuoso.

Como cronista (escreve a coluna Xipikiri, no jornal “O País), HF é mordaz. Os seus textos, quase todos eles de um intervencionismo social, são cínicos e carregam um imenso halo de humor, um cocktail homogéneo que inclui Areosa Pena, Fernando Manuel e, sem dúvidas, o toque delicioso de Millôr Fernandes (leiam “Pandza”, 2016). Esta é a sua base, HF sabe ajustar-se, não é apenas “o mesmo poeta de bosta/ perdendo tempo com a humanidade”, como diria Paulo Leminski, a sua poesia, por exemplo, é honesta, é sempre um novíssimo olhar para as mesmas manifestações. HF seduz os seus leitores sem esfacelar o artístico, se não são os seus narradores – inteligentes –, são as suas descrições, admiráveis e poéticas. Seus artifícios não são vulgares, a sua maturidade é evidente.

O seu novo livro, poesia (HF publicou, também, um infanto-juvenil, “As Armadilhas da Floresta”, 2014), é o auge da sua transfiguração enquanto escritor. HF combina as suas qualidades para fazer uma poesia, diga-se de passagem, distinta, fascinante, divertida e polida. Neste “DESdENHOS – Temas Infantis para Adultos”, quase tudo é perfeito, a linguagem, a cadência, a forma, etc. Mas é também um livro curioso: (a) “DESdENHOS” – o que seriam? O “d” menor sugere uma obliteração? Dever-se-á ler/ ver “DESENHOS”? (b) “Temas Infantis para Adultos” – há diferenciação entre os “temas literários”? Seriam poemas infantis para adultos? Seriam com facilidade compreendidos, os problemas que mortificam o mundo, se eles viessem em forma de poemas para crianças? (c) E os três gatafunhos que estão na capa? Há mais por ver?

Motivo Um

É um livro inspirado nos desenhos dos filhos do poeta. “A tarefa de cada risco/ na instituição desenho, qual é?” (p. 53), questiona-se HF. Primeiro foram os desenhos e depois os versos. HF “plagia” o sentimento dos seus filhos. O escritor buscou decifrar, como o fazem os homens de hoje, as pinturas encontradas nas grutas antiquíssimas. Se HF fê-lo de forma fiel ou não, duvido, mas o resultado é este “DESdENHOS”, uma compilação de 44 textos leves, crus – no sentido da inocência infantil, “mapas de sonhos”. Talvez seja por isso que este livro é belo, pois sendo a imitação natural ao homem desde a infância, segundo Aristóteles, assim seria a harmonia e o ritmo da poesia de HF: “desenhou então uma janela/ por onde as estrelas espreitavam/ e o ar entrava” (p. 18).

Motivo Dois

Poesia para adultos e para crianças (ou vice-versa) – o alerta está patente na capa: “Temas Infantis para Adultos”. Qual seria o pretexto de HF em escrever “DESdENHOS”? Aproveitando-se do imaginário infantil, HF “escreve uma carta” aos adultos. Diz o autor, “Estes textos não são de ninar, são para despertar. Despertar consciências”. Quais consciências? Todas elas (p. 21)! O mundo sempre precisou de poetas, e aquelas pinturas encontradas nas grutas antiquíssimas terão sido, de certeza, as primeiras manifestações poéticas (?). Se a arte está sujeita à “imitação”, por que não somos todos artistas, uma vez que fomos, sem excepção, crianças? Este “DESdENHOS” pretende acordar os homens para esta possibilidade, a ideia de ainda podermos ser crianças, ou por outra, de voltarmos a ser simples, delicados, como a criança-insecto, que “fala com as flores/ na língua do pólen” (p. 27). É por isso que este é um livro para todas as idades, onde o “Helicóptero” (p. 26), o “Barquinho” (p. 28) e outras promessas da infância habitam os sonhos e o desenvolvimento do homem enquanto pessoa.

“Animal”, In: “DESdENHOS”, p. 48

Motivo Três

O terceiro motivo para ler “DESdENHOS” está no estilo de HF, uma poesia sincera, bonita, engraçada e descomplicada. HF é um exímio cultor da palavra, objectivo e minimalista. HF faz da sua poesia uma “ferramenta leve” (p. 36). Diz ainda, “O poeta é um operário com desempenho eólico” (idem). Na verdade, o livro não só faz uso de “Temas Infantis”, usa também uma “linguagem infantil”, aliás, não objectivamente sisuda, aborrecida, que espanta até os leitores adultos: “É vento ou gaita/ o canto miado/ da sereia gata?” (p. 50). A intenção foi claramente esta, escrever para adultos como se estivesse a escrever para crianças, mas, ainda assim, sem o uso de uma linguagem pobre e imbecil: “[…] crescer é um canivete/ a esculpir ruga no coração/ e o rosto murchar a idade/ à pétalas” (p. 34). Este “DESdENHOS” lembra-me um pouco o “Ou isto ou aquilo”, da Cecília de Meireles, especialmente o “Em Pequenino” (p. 40) e o “Animal” (p. 48). HF presenteia o leitor com textos que são um banquete de ideias: questiona, sugere, canta e brinca. Brinca como se fosse brincar para sempre: “brincar é poesia”, (p. 31), “a menina desfia os sonhos” (p. 15), “o mundo vai se constipar” (p. 21), “Poesia é muito antes de amar” (p. 27), “Juro, por tudo quanto é mais salgado” (p. 47). Este livro, o quinto do autor, é uma surpresa.

Motivo Quatro

Páginas repletas de desenhos. Primeiro foi o caos, os desenhos, pequenos fantasmas que assombravam as paredes e os livros do autor, seguiu-se o desdenho, quiçá, daquela liberdade artística (não há arte sem liberdade); depois vieram os versos. Diferente dos livros de poesia comuns, “DESdENHOS” é ilustrado, uma galeria de arte “primitiva”, uma exibição de um artista principiante, naïve e verdadeiro. Os traços são precisos. Uma flor, um elefante ou um rio a correr, texto e imagem, a façanha: terem sido feitos por uma criança. Este é um outro detalhe que reforça, afinal, a ideia de que “DESdENHOS” é um livro para miúdos e graúdos. No fundo, entretanto, fica a ideia da contradição ou da adulteração, de os textos não transmitirem a paixão das imagens, de terem superado, neste caso, o seu sentido criador. Seria “por erro técnico ou falha humana” (p. 55)? “Temas Infantis para Adultos” explora os dois universos, como é óbvio. Numa palavra: É prudente ler este livro aos poucos, como sorvos de vinho bebidos directamente da boca da musa.

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