Coisas de Moçambique Os magros salários dos professores do ensino primário

Os magros salários dos professores do ensino primário

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Há muito tempo que penso em tocar o assunto dos professores do ensino primário (para mim, é um assunto bastante sensível e que merece tratamento ao mais alto nível), mas as vezes acho melhor deixar para lá. No entanto, hoje decidi falar. Não sei que repercussão o assunto poderá ter, mas lá vou eu. Acho que é uma aventura boa e vale, por ser de uma classe que merece que todos os moçambicanos tirem o chapéu. Afinal, o que seria de moçambique sem os professores?.

Os professores do ensino primário aqui em Moçambique recebem muito pouco, mas muito pouco mesmo….e para receber minimamente tem que estar colocado em uma localidade daquelas bem distantes mesmos. Dificilmente se encontra um professor com um carro básico, mas deviam ser eles a usar os melhores do mercado (talvez).

Acho triste e deprimente um professor responsável por desenvolver as primeiras manifestações da mente de uma criança, desenvolver personalidade carácter, articulação da língua, desenvolvimento psico-motor. Essas crianças que no futuro pode ser até um presidente da república, grandes doutores de alguma coisa. Contrariamente, os do ensino secundário e universitário receberem fortunas enquanto que já não tem tanto trabalho assim, pois diz se que o ensino é virado para o aluno.

Ou seja, quem deve fazer o esforço não é o professor e sim, o aluno que está super interessado em aprender algumas coisas. Cabe aos professores o papel de monitorizar o desempenho dos alunos.

Professora Moçambique

Na minha humilde opinião, acredito que não existe um salário ideal para um professor do ensino primário, mas até onde sei não deviam passar privações por receberem “migalhas”, enquanto que em geral a pessoa só se torna realmente pessoa por passar pelas mãos deles.

É muito simples, imaginemos um cenário em que os professores só ficam e olham para o aluno (hoje em dia temos alguns casos de género, mas está mesmo ligado aos incentivos que eles não tem), não tem paciência para o ensinar, fazer o devido acompanhamento, o que seria dessas crianças (que são intituladas flores que nuncam murcham).

Estaríamos a assistir uma situação de meninos que só estariam a zanzar, todos com cabeças ocas e sem nada de interessante para dizer e mostrar. Mas, assistimos uma situação totalmente diferente, as crianças se desenvolvem muito bem e é tudo graças a esse esforço dos professores que mal recebem, simplesmente não conseguem sequer ter dinheiro de chapa para eles e os seus respectivos filhos. Mais ainda, não conseguem ter uma alimentação condigna.

Estamos numa situação em que só é docente ou professor aquele que tem amor por isso, e corremos o risco de, futuramente, serem poucos. Em todas as classes de emprego, há que se criarem incentivos, o que os responsáveis pela área deviam fazer é dotar, financeiramente, a esta classe ou grupo para que continuem com o trabalho (diga-se magnifico) que tem.

Não se justifica que o professor tenha que percorrer longas distâncias para exercer a sua profissão e passado dois a três anos não consegue nem comprar um “carrito” básico para circular. Ele é obrigado a andar de transporte público. Onde vai ficar a auto estima desse professor? A sua vontade de trabalhar?

Vou responder. Claro que só vão sobrar aqueles que estão na profissão porque gostam e mesmo assim vão trabalhar mas não como deve ser. Simplesmente, vão despachar. É uma situação bem triste, porque deveria ser diferente. E recentemente, descobri que para elevar a renda desses professores é necessário fazer o ensino superior.

Acho justo, mas se eles não conseguem fazer nada com o salário como é que vão pagar a famosa universidade? Claro, que não vão continuar a estudar. Sabe-se que as nossas universidades saem bem caras para a maior parte dos bolsos, estamos numa altura em que estuda só quem pode, por aqui.

Lembro-me que quando fiz o ensino primário tínhamos diversas actividades na escola, todas elas eram de iniciativa do professor, nos últimos tempos os alunos vão a escola, mas não tem o acompanhamento directo do professor, por isso encontramos crianças com sete a oito anos que ainda nem sabem ler. Nós levávamos palmadinhas por não conhecer a tabuada, alfabeto e não saber juntar as palavras para conseguir ler.

Acredito que há mal nenhum em se pagar o salário razoável aos professores do ensino primário, sem contar com os incentivos, bónus que também deveriam receber.

Enfim, mais uma vez acho que falei de mais…

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