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Teoria Geral do Cemitério

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Teoria Geral do Cemitério
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Seus olhos tinham a vermelhidão da desistência, seus punhos já não tinham a intenção de lutar. Estranhava-a, aquela não era a sua esposa. Culpado? Sim, quiçá. Após dez anos de matrimónio, a sua existência tornara-se insípida, e ela – apática –, atrofiava-se numa cadeira, o sol todo, num canto, à sombra.

Mariza fora dona de uma formosura inusitada e graça de todas as mulheres da aldeia: seu hálito era frescura das lagoas, seu corpo era selvagem e perfumado, sua alegria transbordava e, através dos poros, adoçava a sua pele. O himeneu foi a moeda para tê-la só para ele, como propriedade. E ela amava-o, era quinhão de si, e compreendera sozinha, apenas especulando: passaria com ele mais tempo do que com os seus pais. Seria uma filha ingrata, abandonando-os? É o que fazem os filhos, um dia, tarde ou cedo. Assim fizera a sua mãe, tinha chegado o momento dela, e num dia vulgar, os filhos de seus filhos também o fariam.

Vê-la sentada naquele canto, tricotando, manuseando, resmungando fundo sem voz, dias e mais dias, tornavam-no mais amargurado. Qual seria o destino do seu casamento? Seria aquilo casamento? A bola de linha de tricô rolava mais rude que o ponteiro dos minutos, e só ele percebia. Poderia ter interrompido com aquela mania da esposa, mas não o fez, e quando via que as bolas escasseavam, voltava a comprá-las em número, sustentando a paranóia. Deixara o quarto para ela, dormia onde desejava, onde o sono lhe encontrava.

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Mariza envelhecera vinte anos em dez. Sentia-se só ele estando sempre presente, com excepção de quando estivesse no trabalho, com as mãos sobre o volante da ambulância, socorrendo vidas. Rumbo questionava-se como ele fazia aquilo, “socorrer vidas”, se a vida da esposa fora incapaz de amparar. Mariza não o via, não via ninguém, e quando falava, não era com ele, não era com ninguém. Rumbo imitava-lhe o silêncio, aprendera a imitar-lhe o mutismo. Às vezes dirigia-lhe umas questões vagas, mas não colhia respostas.

Os vizinhos conservavam-se longe da vedação de arbustos, não partilhavam, não conviviam, não saudavam. Nem um «Bom dia!», só um nada! Tinham medo, esclareciam. Nem sequer os pássaros gostavam dos ramalhetes ou das sombras das árvores daquele quintal. Por vezes, no hospital, as pessoas disfarçavam que não o viam, só para evitarem o diálogo, a contaminação da maldição que caíra sobre aquelas duas cabeças. Como está a sua esposa? Ela melhorou? Eram as palavras que Rumbo desejava ouvir e que lhe traziam memórias que ele jamais olvidaria.

A casa estava às escuras, como na maioria das vezes. Apenas sombras e dúvidas inteiravam a espaçosa residência. Trabalhara até tarde, só por gozo, para fugir do hábito, mas assim que entrou, um horror excessivo apossou-se dele e as suas mãos começaram a tremer: ela não chorava. Mariza costumava chorar sempre, um choro miúdo, fino, acanhado e perseverante. Rumbo amava aquele rumorejar de lágrimas, era a única coisa que a infelicidade não lhe roubara, sorria quando ela chorava, mórbido, lunático, mas sorria. Ouvir o gemido choroso da mulher, àquela hora da noite, dizia-lhe que ela ainda não renunciara totalmente a vida.

Rumbo correu com as mãos tacteando as paredes, acendendo as luzes. A porta do quarto estava semiaberta, e dentro dele, o sossego, apenas o sossego. Ele então experienciou o que a sua alma mais receava. Quando a luz inundou o quarto, a sua paz desequilibrou-se ainda mais. Sentiu que iria perder o tino, o fino do tino que lhe sobrava. Aproximou-se da cama e sorriu-lhe uma última vez. Todo amor que se dilapidara durante os anos, naquele momento rebentou, imensurável, e debatendo-se de joelhos, lançou um grito de raiva que lhe arrebentou os pulmões, engasgando-se. Derrotado no soalho, com os olhos colado no tecto e a respiração em recuperação, Rumbo soliloquiou. Aquele era o porto em que a sua vida atracara. E enquanto durou a dor que lhe doía o corpo inteiro, acreditou que fundearia ali, para sempre, a sua âncora.

Acordou três horas mais tarde. A certeza do seu sonho estava diante de si. Não sabia o que fazer. Abriu rapidamente as malas e puxou dois pares de lençóis. Embrulhou o corpo da amada e carregou sobre as mãos estendidas, como na primeira vez em que Mariza pertencera-lhe. Colocou mansamente o corpo dentro da ambulância. Quando deixou o seu quintal, não sabia se lá voltaria, mas de uma coisa estava certo, ninguém se importaria com a morte da esposa.

Cavou o que conseguiu. Ofegava de pânico, estava sozinho, no meio da mata e do escuro. Depositou o corpo e lagrimou, evitando o choro que o ritmo do seu sofrimento não calava. Mariza!, era tudo o que ele conseguia dizer, chamava-lhe. Mariza não tornaria, o desgosto assassinara-lhe. O seu ventre, infértil, concedera-lhe a desalegria de não poder ter filhos.

Jamais conhecido comentou a desaparição de Mariza. Passaram-se anos, Mariza não mais descansa sozinha naquela mata, várias outras pessoas seguiram-lhe as pisadas, Rumbo iniciara um cemitério.

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Pedro Pereira Lopes é escritor, docente universitário e pesquisador. Fez rádio, música e criou os blogs "Kumbukilah" (2009), "cadernos de haidian" (2012), "Entre Aspas Escritor (2013), entre outros. Editou a web-revista de literatura jovem “Lidilisha” e assina a coluna "Vão homens ao meu lado distraídos", no jornal "Debate". Tem formação superior em Administração e Políticas Públicas.

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