Numa tarde típica do verão em Maputo, sentamos com Lucrécia Paco, uma figura cuja presença é tão imponente quanto sua lista de realizações. Nascida na época do colonialismo português, Paco não apenas testemunhou a transformação de Moçambique, mas também desempenhou um papel vital nela através de sua arte. Conhecida por sua paixão inabalável pelo teatro e por dar vida a personagens complexos na televisão e no cinema, Lucrécia é mais do que uma atriz aclamada – ela é um símbolo de resistência e expressão cultural. Durante duas horas de conversa exclusiva com o MMO, Paco compartilha as histórias por trás de sua jornada artística e o impacto profundo que ela espera deixar na sociedade moçambicana.

Quando e onde nasceu Lucrécia Paco?

Nasci em 1969 em Loureço Marques (actual cidade de Maputo), passei a minha infância no bairro do Aeroporto em casa da minha avo.

Conte-nos como foi a sua infância…

Tive uma infância conturbada, pois na época colonial vivíamos num clima de instabilidade. Além disso, vinha de uma família de poucas posses. Minhas brincadeiras resumiam-se a subir em árvores e fazer bonecas de trapo com areia. Meus pais trabalhavam, e minha mãe, que era modista, trabalhava no meu quarto. Portanto, minha infância foi marcada pelo som da máquina de costura, dos comboios e dos aviões. Também gostava muito de assistir às atividades culturais que havia na zona.

Como foi o contacto com a escola?

O meu contacto com a escola foi um pouco traumático, pois não dominava a língua portuguesa e apanhava muitas palmadas por causa disso. Gostava de levar para a escola tudo o que era a convivência na minha zona, mas felizmente logo tivemos a independência e esta minha vontade de exaltar e cantar as nossas canções encontrou um espaço neste universo. Sempre que havia tarde ou noites culturais, escapava, atravessava a linha férrea para ver os timbileiros na Unidade 7. Foi daí que surgiu este espírito de artista, pois eu dançava e cantava. Então, apropriei-me da língua portuguesa nas reuniões, porque fazendo parte do grupo cultural do bairro fui chamada a declamar e, assim, libertei o medo neste contexto.

Que coisas, incluindo brincadeiras, marcaram a sua infância?

Das brincadeiras de infância, o que mais me marcou foi seguir os comboios e os aviões, brincar com xikambate, nadar “dlha dlhar” na chuva cantando “dlhadlhá nphula hitada mazanga”, ir à machamba com a minha avó e fazer bonecas de massaroca. Essas são as coisas boas da minha infância, e são coisas que me lembro com muito gosto.

Como surge a vontade de ser actriz?

Quando me mudei para a cidade, reencontrei o professor Magaia da Escola Primária da Maxaquene, que nos orientava nos ensaios. Ele frequentemente escolhia-me para interpretar personagens principais nas pequenas peças que realizávamos. Foi aí que despertou em mim o desejo de ser atriz. A minha paixão pela atuação fortaleceu-se com o meu primeiro documentário, ‘Maputo Mulher’. Percebi a relevância da arte dramática, especialmente após ter sido selecionada em castings para ‘O Vento Sopra de Norte’ e outros projetos. Enfrentei até desafios com o meu pai, pois comecei a dar menos atenção à escola, já convicta do meu desejo de ser atriz acima de tudo. A decisão final veio depois de assistir à peça ‘Xiluva’. Inspirada, fiquei atenta a um anúncio no jornal que procurava candidatos para integrar o grupo Txova Xitaduma em 1985.

Como foi seu primeiro teste no palco e para que peça foi?

O meu primeiro ensaio foi a Revolta da Casa, foi a primeira vez que contracenei ao lado da Manuela Soeiro, Ana Magaia, João Manja e outras figuras que fizeram a génese  do teatro em Moçambique.

A peça “Vestir a terra” foi apresentada em Moçambique e na África do Sul logo após os Acordos de paz. Que mensagem levava esta peça sobre a nova realidade do país?

A peça ‘Vestir a Terra’ era uma homenagem à paz, levando uma mensagem vital às pessoas que haviam abandonado suas casas devido à guerra ou perdido a esperança. Era profundamente gratificante ver a reação do público no final das apresentações, muitos expressando o desejo de retornar às suas casas. Enfrentámos vários desafios; encontrámos pessoas que desconheciam a realidade de um Moçambique independente e outras que ansiavam simplesmente pela oportunidade de obter um documento de identidade. A questão da nacionalidade é fundamental, e poder transmitir essa mensagem de paz e esperança era incrivelmente recompensador, dado que muitos precisavam desesperadamente disso.

A peça também era uma viagem pela realidade atual de Moçambique, onde as mulheres têm voz ativa e contribuem significativamente para a sociedade com seu trabalho. Numa das personagens, Albertina, interpretada por Graça Silva, é retratada a influência decisiva de uma mulher sobre o marido num contexto predominantemente machista. Era fascinante ver a reação do público, por vezes interrompendo a peça para expressar suas opiniões, como ‘hoje, o Francisco tem que bater na Albertina; ela deve aprender a ouvir o marido’. Essa interação direta com o público era um aspecto enriquecedor da experiência.

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Quando e como surge o Mutumbela Gogo?

Foi Manuela Soeiro quem idealizou o teatro profissional em Moçambique, e foi por sua iniciativa que me tornei membro fundador do Mutumbela Gogo em 1986. Ela reconhecia que, dentro do grupo Txova Xita Duma, existia um núcleo de atores, incluindo Ana Magaia, João Manja e Elisa Maússe, com a ambição de profissionalizar a sua arte de representar. A nossa primeira peça, dirigida a um público infantil e centrada na temática do medo, intitulava-se ‘Qual é a Coisa, Qual é Ela’, sob a orientação da brasileira Isadora Dias, e com a encenação a cargo de Manuela Soeiro.

O monólogo Mulher Asfalto foi peça que mais marcou a sua carreira até agora. Conte-nos como foi encarnar este personagem, tendo em conta os tabus e as polémicas que  giram em torno  da prostituição e da actuação das autoridades.

A peça ‘Mulher Asfalto’ tinha como objetivo sensibilizar o público para a questão do humanismo, inspirando-se num acontecimento real: a agressão de uma prostituta em plena luz do dia por um polícia. Esta situação levantou questões importantes colocadas por Alan Kamal: até que ponto cuidamos uns dos outros? Até que ponto a única opção para ganhar a vida para algumas pessoas é a prostituição? E quando a própria autoridade comete tais atos, a quem podemos recorrer? ‘Mulher Asfalto’ não tinha defesa contra a violência do bastão do polícia, apenas a sua voz para afirmar o seu direito à vida. Esta peça era também uma homenagem à dignidade do corpo humano, independentemente da sua condição social. Ofereceu um olhar profundo sobre este submundo e eu tive a responsabilidade de dar voz a esse corpo. ‘Mulher Asfalto’ trouxe à tona não só o texto, mas também a nossa realidade, apelando ao respeito pela vida do outro.

Quem é a Mulher Asfalto na nossa sociedade?

Mulher Asfalto’ representa alguém em uma situação de subordinação ao poder, onde tanto homens como mulheres podem se identificar. A peça foi enriquecida com melodias únicas, não se limitando apenas ao som da timbila de Chen Wangune, que começou a jornada comigo. Nas últimas apresentações no Centro Cultural Franco Moçambicano, integrámos Chude Mondlane e Nela Nayene para adicionar mais ritmo e dinamismo à peça.

A teledramaturgia é também uma pagina da sua carreira, dado que em 2010 foi uma das actrizes principais da telenovela  Niniteen, produzida pela TIM. Como surge o convite e como foi a experiência?

Devo admitir que a experiência foi muito gratificante. Não só pelo orgulho de ser moçambicana, mas também pelo desafio de trabalhar com um orçamento limitado, o que, curiosamente, não diminuiu em nada o seu valor. Ter a oportunidade de contracenar com atores jovens foi enriquecedor. É verdade que a versão original era brasileira e até o diretor era do Brasil, mas toda a equipe era moçambicana e conseguimos fazer um trabalho ótimo com recursos modestos. O convite veio diretamente da TIM. Aceitei o desafio para diversificar as opções além das novelas brasileiras e para dar início a um projeto que narrasse uma história relevante para os jovens. Trabalhar com o Chico foi uma experiência de aprendizado valiosa; a linguagem da novela é muito diferente da do teatro, exigindo uma verdade emocional mais genuína e menos exagerada.

A questão dos beijos como foi com os meninos em casa?

Os meus filhos estão bem cientes do meu trabalho na arte de representar. Antes de irem para a escola, eu costumava levá-los comigo para os locais onde trabalhava, durante dois a três meses. No entanto, nunca os expunha a cenas em que a mãe tinha que beijar alguém, para evitar situações desconfortáveis. Assim, eles têm uma noção clara do que é a representação e não ficam chocados com o que veem. Eles orgulham-se do trabalho que eu faço.

Projectos para um futuro próximo?

Por agora, afastei-me temporariamente dos palcos para trabalhar com crianças na cidadela. Esta experiência tem sido bastante gratificante e estou a considerar formar-me como educadora, o que seria uma forma excelente de partilhar a minha experiência. O meu trabalho com as crianças não visa formar futuros atores, mas sim motivá-las através da arte.

Uma mensagem para o público e fãs.

As pessoas tem que aderir ao teatro e sair um pouco do sofá e das barracas. (risos)