A história do OBIKWELO

A história do OBIKWELO

Não me lembro exactamente de quando foi, mas não muito distante dos meses que se foram, andava eu, juntamente com um estudante Moçambicano, pelas ruas de Moscovo. Íamos nós, procurando relaxar, tirar o peso, o “stress” das aulas. Seguíamos serenamente naquelas ruas que ao lado das nossas, reluzem… Conversávamos, expúnhamos os nossos sonhos, aspirações, frustrações e indignações… ansiávamos por chegar ao bar para onde nos dirigíamos, de modo que pudéssemos estar mais confortáveis e prestássemos mais atenção aos dizeres um do outro, envoltos num ambiente simplesmente acolhedor e aconchegante. Ao encontrar-mo-nos a uns escassos passos do local, depara-mo-nos com um rosto sofrido, cansado, olhar morto e sem brilho… esse rosto não diferia de tantos outros que já vira na vida, esse rosto era negro!
E eu fitava-o enquanto passava, e ele observava, como se buscasse ou encontrasse a si próprio em mim. Tive de parar, acabei perguntado ao meu companheiro se o conhecia:

– Nhantumbo, conhece-lo?

– Sim, está sempre por aqui, diz-se que foi um jovem estudante, e não sei mais a sua estória.

– Estou curioso meu, é um idoso, se calhar apenas um adulto que aparenta ser idoso… A vida tem dessas, faz-nos parecer o que não somos, e quando o somos, por vezes, ninguém acredita!

– Não sei bro, também me espanto, como pode envelhecer nessas ruas? Mesmo eu passo mal, mesmo tendo onde dormir, repousar a cabeça e me proteger deste frio devastador…

– Vou falar com ele, preciso esclarecer-me… é que não é a primeira vez que o vejo – julgo eu – ou deve haver tantos outros espalhados pelas ruas desta cidade mitológica. Sou tão estudante quanto ele foi um dia, nunca se conhece o amanha num livro que está sendo escrito!

O camarada concordou com as minhas palavras e nos decidimos, iríamos falar com o velho negro, tão negro quanto nós e os nossos antepassados. Chegados ao local onde se encontrava a misteriosa alma, não ligamos aos olhares que nos eram dirigidos, olhares pejorativos de quem diz “O que querem com esse marginal?”, e dirigi-me em russo :

– Boa tarde Senhor, desculpe-nos, mas sempre o vemos por aqui, porém, somente hoje tivemos a coragem de dar um “alo”. Gostaríamos de conversar um pouco, pode ser aqui perto, no bar “SUBWAY”. Tomamos um copo e trocamos uns dizeres …

– He, he, he, he… – o velho riu-se e prosseguiu – conheço cada olhar que comigo se depara, e algumas vezes eu vi o olhar deste jovem que te acompanha (referindo-se ao meu companheiro que vive em Moscovo, na cidadela estudantil ). Vi, sim, que várias vezes hesitou em dirigir-me a palavra, nesse mesmo bar para onde iremos agora. Sem problemas, avante!

Ambos (eu e o Nhantumbo) estávamos cientes de que despertaríamos demasiada atenção pela rua e assim que entrássemos no bar, pois as roupas do nosso convidado estavam num estado lastimável… mas não nos preocupamos, assumimos o desafio e lá fomos. Chegados ao local sentamo-nos os dois, enquanto o outro camarada comprava os copos de cerveja para que molhássemos a gargantas e, quem sabe, fizéssemos um brinde a sei lá o quê, quem sabe a amizade que estava prestes a começar.

– Um brinde ao nosso companheiro, muito obrigado por ter aceitado o convite.

– De nada, miúdos, sabem, são vários os que comigo andaram por aí, e hoje, fazem-me vista grossa… evitam-me pelas ruas julgando que irei pedir-lhes uns tantos rublos, roupas e quiçá, alimentos! Mas não, vivo ou sobrevivo nestas ruas graças à bondade das pessoas como vocês, que me olham sem pesar e preconceito, e das parcas forças que me sobram.

– Mas… – tentei dar um novo rumo a conversa, mas fui interrompido pelo orador antecedente.

– Calma, meu jovem, sei que estás curioso por saber quem eu sou e de onde venho… Bem, já deu para ver que sou Africano, pois não? O meu país não interessa, eu já não tenho país, talvez um continente, mas não um país! O meu país são estas ruas, são estes copos, são os vossos sorrisos que me alegram de vez em quando e fazem-me acreditar de que o mundo ainda é habitado por gente de bom coração, embora seja uma escassa minoria. Sabem, fui estudante como vós, andei por aí, na RUDN (universidade de amizade e solidariedade entre os povos – Moscovo). Estava num desses cursos que me permitiriam ter um diploma e ser alguém… Mas, infelizmente, morri na praia, meus miúdos. Este velho morreu na praia! Nunca recebi subsídio da minha embaixada, vivia de acordo com alguns pequenos negócios que por aqui arranjava, e a bondade de alguns colegas ou das damas russas e entre outras a quem satisfazia sexualmente. Sim, sexualmente meus irmãos, em Moscovo, a prostituição no seio dos estudantes, é uma realidade! Não se percam nisso meus irmãos. A prostituição enche aos bolsos e quem sabe o estômago, mas, em troca, esvazia o ego! Mas era o ganha pão, apenas, não chegava sequer para o meu material académico e para as minhas deslocações. Foi aí que me meti numa fria, tão fria quanto o inverno deste país hipócrita. Aceitei entrar para o negócio das drogas. Meti-me na máfia russa e só não morri por um triz, mas passei grande parte dos anos que devia ter passado estudando, atrás das grades, sofrendo toda a gama de abusos… Escrevi inúmeras e vãs cartas para a embaixada, expliquei a minha situação ao meu país, ao país que sempre amei, e o que recebi em troca? Nada mais além do silêncio…

Fez uma pausa enquanto acabava com o pouco de cerveja que havia sobrado em seu copo, levantei-me rapidamente e dirigi-me ao balcão, enchi os copos e voltei. Encontrei o “papo” fluindo eloquentemente.

– O meu país abandonou-me quando mais precisei dele. A fonte de dinheiro que existia em África, que me garantia a sobrevivência, secou. O que achas que eu poderia e deveria ter feito? Tive de me virar, não havia meios para regressar, não havia meios para continuar com os estudos, a preocupação, a máxima aflição, era sobreviver!

– E os seus colegas, os seus conterrâneos? – Perguntou o Nhantumbo.

– Ha, ha, ha , ha … por vezes, a inveja do Africano, consegue rezar tão baixo quanto a pobreza da sua pátria. Enquanto a minha vida corria bem, acumulei amigos e, obviamente, inimigos (que eram a maioria)! Vocês são suficientemente inteligentes para deduzirem o que digo. Recebi ajuda dos que bem me queriam, até onde eles puderam, mas quando saí da cadeia, já cá não se encontravam. E para o meu azar, alguns dos que mal me queriam, foram os que tiveram sorte, mantiveram a vida de sempre, só que com um pouco mais de glamour. Casaram-se com russas e prosseguiram com as suas vidas. São os mesmos que comigo se cruzam hoje em dia, os mesmos que têm nojo e vergonha de serem negros e Africanos. Agora entendem por que eu eu digo “Não tenho um país mas, provavelmente, tenho um continente”? Por esses mesmo que se sentem mais felizes vivendo essa vida de faz de conta, enquanto em casa, as suas famílias acordam sem saber de que se irão alimentar nesse dia. Sinto-me muito triste quando os vejo. Julgam eles que irei ajoelhar-me por uns patacos trocados, uns tantos cigarros ou uns copos de cerveja!? Nada, nunca, perdi tudo, menos a minha sanidade, orgulho e auto-estima.

– Sabe, nesses breves instantes que juntos partilhamos, ambos (eu e o Nhantumbo) tivemos uns dos momentos mais inspiradores das nossas vidas. O que queremos dizer é que, estamos muito gratos em conhecê-lo a si e à sua estória. Por desvendar todos esses boatos e o mistério que a sua pessoa exala. Se pudermos fazer al…

– Não digas isso rapaz, não penses nisso tu também. Miúdos, tudo que podem e devem fazer é estudar! Jamais esqueçam o vosso país, seja lá o que ele for. Conhecem aquele proverbio: “Não faças o que faço, mas o que digo”? Pois bem, é bem aplicável… e olhem, “Quanto mais sobem, mais dura será a queda. Juntem degraus, e não espinhos”.
– Só mais um pouco, como se…

– Vocês são tão previsíveis… Chamo-me Obikwelo! Muito obrigado pelos copos, agora tenho de me mandar, senão perco o pequeno biscate que consegui, vou lavar carros pra ver se ganho algo para o jantar.

– Por favor, leve este dinheiro consigo, não é muito, mas creio que ajuda… – Julgo que falei encarecida e ternamente.

Obikwelo hesitou, mas acabou por levar, despediu-se com um sorriso e saiu, mandou-se pela rua fora… Quando observamos bem em nosso redor, havia uma dúzia de olhos e olhares a nós direccionados. Mas não ligamos, o meu companheiro perguntou-me:

– Como te sentes depois desta bomba de conversa?

– Porra, “so much emotions for one day” (muitas emoções para um único dia), manda lá vir mais um copo.

E mais uma vez brindávamos, mas não era somente pela amizade, era também pelo aprendizado e bravura que aquele nobre homem nos havia oferecido. Pela magnífica estória da sua vida que, através dos nossos lábios, se espalharia pelo mundo inteiro, inspirando gerações!

Emerson David de A. Chiloveque, 24 anos de idade, nacionalidade moçambicana. Estuda Relações Internacionais e História, em Tula, Rússia. Assumiu-se escritor amador há 2 anos. Chil escreve contos, crónicas e artigos para jornais e blogs. Enamorado pela arte, Chil encontrou na escrita a paz que precisa para contribuir para o desenvolvimento e enriquecimento cultural da humanidade.

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