Textos Contos “o longe é sempre mais perto” (parte 1)

“o longe é sempre mais perto” (parte 1)

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conto por pedro pereira lopes

lin xuanyu suspirou, pousando  o seu queixo delgado sobre o meu ombro. a sua farta cabeleira, da cor de mel, soltou-se. deixou-se ficar por mais trinta segundos, imersa nos seus pensamentos, quando se afastou num gesto brusco. olhou por cima da cabeça e, do nada, aflorou um sorriso branquíssimo. o homem da recepção do edifício fez uma careta, enchendo a testa de finas rugas, e tossiu, para depois bebericar o chá-verde que sobejara no seu cantil transparente. eu já calculara a reacção da lin, mas todo o seu esforço seria inútil, absolutamente inútil. ela passou os dedos pelos cantos dos seus olhos rasgados, sentou-se devidamente no sofá, e, clareando a voz, disse:

‘o que queres fazer?’

‘não sei, lin. o que nos resta fazer?’

‘um dia?’

‘sim, apenas um’

‘não é pouco. vamos celebrar?’

eu sorri, não tinha motivos para celebrar; talvez fosse inoportuno celebrar num momento como aquele, de abandono e angústia. os meus olhos grandes ensaiaram uma crise suave, como se eu pudesse, por milagre, chorar. veio-me então, associada à ideia de retorno a maputo, as memórias do meu primeiro dia em pequim. era primavera e chovia muito. chovia aos molhos e eu estava feliz: era sinal de sorte, uma recepção pluviosa. quando abri a porta do shao yuan, a pousada onde ficaria por quase ano e meio, soube logo que pequim era o meu exílio

foto: http://2.bp.blogspot.com

a yiheyuan road era um rio negro por onde corria um entulho de homens e máquinas – bicicletas, triciclos e riquixás, sobretudo. cortámos-lhe as ondas e entrámos no primeiro café que encontrámos, próximo ao zhongguancun, o vale do silício chinês. o meu fascínio, ali, não eram os circuitos integrados ou os lcd’s, mas uma loja de livros de três andares que, para quem vinha de uma cidade de oito módicas livrarias, acabava de sair de uma narrativa de ficção científica

o café tinha as paredes cerúleas, e numa delas, um retrato de renoir feito a lápis. talvez fosse um auto-retrato, mas sem os óculos, a minha vista não era grande coisa. lin chamou o servente em mandarim. na televisão, uma reportagem sobre a inauguração de um canal chinês, o cctv, em nairobi. a festa era enorme, um mandatário de pequim fazia um meloso discurso. depois, uma peça sobre a bulha pela posse das ilhas senkaku, com os japoneses. lin xuanyu pediu dois cappuccinos e dois croissants com recheio de chocolate. o renoir ali ainda estava, com a parede inteira para si

‘tian’anmen square?’

‘talvez algo diferente’

lin pôs-se a pensar, como se não tivesse opções. eu não me importava, vê-la a pensar valia pelas horas que me restavam

‘vais publicar o diário?’

‘não sei’, balbuciei, deitando-lhe um olhar bravo, ‘não chega a ser um livro’

lin xuanyu sorriu. depois desfez o semblante numa mágoa que quase me asfixiava. espetei os olhos no fundo da chávena de café, espiando uma exposição de retratos meio sépia

*

‘e tu, não danças?’, perguntou-me a lin, distraída, no nosso primeiro encontro, no natal da associação dos estudantes africanos

‘tu também não’, disse eu, afastando-me ainda mais da roda eufórica de dançarinos, que seguia o refrão de lengoma, canção da artista sul-africana zahara

‘tens um ar de cientista’

‘sou escritor, gosto de observar’

‘e tu?’

‘escritor, hein!’, lin sorriu, desconfiada. ‘tens algo publicado?’

‘um livro infantil…’

a chinesa franziu as sobrancelhas

‘e dois prémios’

‘deves ser bom’, disse ela, com as bochechas rosadas

‘tive sorte, muita sorte. mas, e tu? o que é que tu fazes?’

‘estudo informática, faço espanhol e gosto de legendar filmes’

seguiu-se um silêncio, os olhos dela presos à minha barba por fazer, ao meu cabelo esgrouviado, à minha camisola azul com letras amarelas grossas abaixo da gola. lin xuanyu tinha olhos pequenos, lábios finos e um nariz menor que um polegar. como seria beijá-la?, pensei

‘e pequim, inspira-te? estás a escrever?’

não me apeteceu responder-lhe, cocei a barba e pus-me a considerar se o que eu andava a esgaravatar valia alguma referência. a grande ideia para o grande romance era uma deslavada miragem; sem expectativas, dedicara-me a relatar, num blog, os meus dias no subúrbio de haidian. um acto de fino narcisismo, na verdade, querer que a nossa vida, em virtude de seus méritos, lhe seja conferida uma plateia

‘e então, senhor escritor?’

‘escrevo um diário, três ou mais textos por semana’

os olhos pequenos da lin, resguardados por umas lentes grossas, incendiaram-se como dois pirilampos matreiros, que fingiam ser estrelas. seguiram-se outras perguntas, e depois de quatro músicas bastante energizadas, a roda de dançarinos se desfez. um amigo queniano, o culpado pela presença da lin na festa, acercou-se da nossa mesa – com a testa suada – e, risonho, como lhe era natural, pôs-se a explicar os costumes da época do seu país, as reuniões familiares, as roupas novas e o nyama choma, a ceia do dia

‘terás muito o que contar’, disse a lin

‘absolutamente’, respondi

o owino continuou; bom cristão que era, não lhe faltavam detalhes ordinários sobre o natal. a minha atenção, porém, era falsa, situada, a bem dizer, entre a completa idiotice e um desvario epiléptico, um estado clínico visível e preocupante. lin xuanyu, que sabia pouco menos do que eu sobre a matéria, enflorava-se com o que ouvia, com o meu reflexo, todavia, espelhado nos seus óculos

heri ya krismasi!’, disse o owino, ‘significa feliz natal, em kiswahil

*

o táxi levou-nos para fora do primeiro anel de pequim. depois de mais de poucos quilómetros, uma zona que eu ainda não conhecera, surgia do meio do nevoeiro. numa esquina, um hotel dos anos 50, o qianmen jianguo, o guardião do beijing liyuan theatre, célebre pelas actuações da ópera de pequim

‘a tua última memória de pequim’, disse a lin numa expressão confusa, como as imagens do catálogo da ópera

enquanto durou a ópera, lin xuanyu manteve, quase sempre, a cabeça sobre o meu peito, como um pé de junco imerso nas águas de um lago, tenho chorado na segunda parte da ópera. a peça, o rio de outono, era uma tragicómica lambidela ao amor correspondido de uma freira por um professor. inevitavelmente, porque não se pode convier a dois amores, a virtuosa largou o claustro e teve de cruzar o rio de outono, em sinal provação, numa mescla de dor e prazer

foto: http://www.pekingopera.eu

jantámos em sua casa, papas de arroz, tofu frito com molho picante e dumplings de legumes. falámos, um pouco, sobre as artes dramáticas. quando me ergui, lin xuanyu encobriu os óculos com o longo cabelo e, com uma voz enfeitada, que entretanto não ocultava a dor que sentia, disse:

‘até quando, pedro?’

eu sorri, responder-lhe seria uma punição

‘levas muitos presentes?’

‘poucos, não deu para comprar muito’

lin xuanyu sorriu, solidária. fitou-me nos olhos

(juntos tínhamos oito olhos),

tocou as minhas mãos e disse numa voz que eu ouvia pela última vez, softly:

‘pedro… i am in love. in love. i am

o beijo não foi demorado, enfim, aquele não era para ser um final feliz. fechei a porta e encetei os primeiros passos em direcção à rua, enquanto os soluços da lin xuanyu aumentavam. talvez ela pudesse entender, um dia. arrumei os auscultadores e aumentei o volume do ipod. no fundo, o marulhar sedoso da voz de elis regina. o vento assobiava e eu era um louco que odiava assobios.

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Pedro Pereira Lopes é escritor, docente universitário e pesquisador. Fez rádio, música e criou os blogs "Kumbukilah" (2009), "cadernos de haidian" (2012), "Entre Aspas Escritor (2013), entre outros. Editou a web-revista de literatura jovem “Lidilisha” e assina a coluna "Vão homens ao meu lado distraídos", no jornal "Debate". Tem formação superior em Administração e Políticas Públicas.

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